Opinião

Juros altos são um imposto que o trabalhador paga sem perceber

Opinião: com a Selic em 13,75% e o crédito para famílias perto de 64% ao ano, os juros altos cobram do trabalhador e travam o investimento.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

Prédio escuro da sede do Banco Central, em Brasília, visto ao anoitecer, com carros estacionados e uma avenida em primeiro plano.
Sede do Banco Central, em Brasília, ao anoitecer, em foto de setembro de 2015.Foto: Polianamar / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 16 de setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), baixou a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano. A Selic é a taxa básica de juros do país, a referência para quase todos os empréstimos. Mesmo com o corte, o dinheiro continua caro para quem trabalha.

Esta coluna é opinião. Defendemos que juros altos funcionam como um imposto: quem tem salário e dívida paga, e quem recebe juros da dívida pública ganha. Os números mais recentes mostram o tamanho dessa conta.

O índice oficial de inflação, o IPCA, acumulou 4,58% em 12 meses até setembro, segundo o IBGE. Esse número ficou acima do teto da meta, de 4,5%. A meta é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos. Descontada essa inflação, a Selic de 13,75% equivale a um juro real de cerca de 8,8% ao ano. Juro real é o que sobra da taxa depois de tirar a inflação.

Quem recebe e quem paga

O governo também paga juros, e a conta é alta. Em 12 meses até junho, os juros nominais da dívida pública somaram cerca de R$ 1,16 trilhão, ou 8,8% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o BC. Esse valor é mais de sete vezes o déficit primário, que não conta os juros e foi de R$ 157,2 bilhões no período.

Quem recebe esse dinheiro? Em junho, segundo o Tesouro Nacional, os bancos detinham 31,8% dos títulos da dívida federal interna. Os fundos de previdência tinham 22,5%, e os fundos de investimento, 22,0%. Parte da previdência é poupança de servidores e de trabalhadores, e isso precisa ser dito. Ainda assim, a renda vai principalmente para quem aplica em títulos, e não para quem produz.

Na ponta do consumidor, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas chegou a 64% ao ano em junho, segundo o BC. No cheque especial, um limite ligado à conta corrente, a taxa foi de 139,8%. No crédito pessoal sem desconto em folha, foi de 127,3%. No consignado, pago com desconto direto no salário, foi de 28,3%.

O contraste é o recado. Quem tem carteira assinada consegue o consignado, e a taxa de cheque especial equivale a cerca de cinco vezes a dele. O rotativo do cartão, parte da fatura que fica sem pagamento e vira dívida, chegou a 442,4% ao ano em junho, também segundo o BC. O juro alto não atinge todos do mesmo jeito.

O efeito também não para no consumo. Com a Selic em 13,75%, quem pensa em abrir uma fábrica ou comprar máquinas compara o projeto com a aplicação em títulos ligados à taxa. O investimento produtivo perde essa disputa com mais facilidade.

O argumento contra, respondido com dados

O argumento contrário é sério. A inflação acima do teto ameaça a credibilidade do BC, e o próprio Copom reconhece o risco. Na ata de setembro, o comitê fala em “desancoragem das expectativas”, ou seja, o mercado deixa de acreditar que a inflação volta à meta.

Nossa resposta vem dos dados. Primeiro, o corte foi pequeno: 0,25 ponto, o quinto seguido, e 1,25 ponto desde março, segundo o DGABC. Ajuste de 0,25 ponto não é afrouxamento, e a inflação ainda está acima da meta.

Segundo, a alta de setembro veio da habitação, que subiu 2,31% no mês, puxada pela energia elétrica, segundo o IBGE. A conta de luz não cai por causa da Selic. Juro alto aperta sobretudo o crédito, que é onde o trabalhador sente o peso.

Terceiro, a própria dívida mostra o custo de juros altos. Com R$ 1,16 trilhão de juros em 12 meses, cada ponto a mais na taxa encarece a dívida que a responsabilidade fiscal quer controlar. A credibilidade vem de contas que fecham e de regras que se cumprem, e também de juros que caem com regularidade.

Defendemos a autonomia do BC, criada pela Lei Complementar 179, de 2021. Não defendemos interferência política no Copom. Defender juros menores com responsabilidade é defender cortes graduais, decididos por técnicos, com contas e metas claras.

O próximo Copom se reúne em 3 e 4 de novembro. Até lá, vale olhar a conta de casa: cheque especial, cartão e consignado mostram, na prática, o que a Selic significa para quem vive de salário.

O que diz o Banco Central: Na ata da reunião de setembro, segundo trecho divulgado pelo DGABC, o comitê afirma que o cenário “demanda serenidade e cautela na condução da política monetária”.

Como fizemos: Usamos a decisão do Copom de 16 de setembro de 2026, o IPCA de setembro divulgado pelo IBGE em 9 de outubro, as Estatísticas Monetárias e de Crédito do BC (30 de julho), as Estatísticas Fiscais (31 de julho) e dados de junho do Tesouro Nacional. Lemos essas informações em reportagens listadas em Fontes, em 22 de outubro de 2026, porque os sites do BC e do IBGE não puderam ser lidos diretamente. O juro real foi calculado pela fórmula (1 + Selic) ÷ (1 + IPCA em 12 meses) − 1, com 13,75% e 4,58%, o que dá 8,8%; a mesma inflação de setembro foi usada, por aproximação, para as taxas de junho. As comparações (cerca de cinco vezes) e a relação entre juros e déficit primário são nossos cálculos, e os dados não mostram quem, dentro de cada fundo ou previdência, recebe os juros.

Fontes