Flávio promete juros em queda 'muito rápida', sem meta nem Banco Central
No debate da Band, Flávio disse que os juros cairão 'de uma forma muito rápida'; seu plano não traz trajetória para a Selic nem cita o Banco Central.

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro fez uma promessa que todo brasileiro endividado gostaria de ouvir. Se eleito, disse, os juros vão começar a cair “de uma forma muito rápida”. A culpa pelos juros altos, segundo ele, é do gasto do governo.
Na mesma noite, prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no orçamento. Também propôs comprar as dívidas de pessoas e empresas junto aos bancos. Não explicou com que dinheiro.
Quem decide os juros
A taxa básica de juros do país, a Selic, não é definida pelo presidente. Quem decide é o Comitê de Política Monetária (Copom), formado pela diretoria do Banco Central. O presidente indica os diretores, mas não fixa a taxa.
A Selic já está em queda. Em 16 de setembro, o Copom fez o quinto corte seguido e levou a taxa a 13,75% ao ano. O boletim Focus é a pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado. Em 13 de outubro, projetava Selic de 13,25% no fim de 2026 e de 12% no fim de 2027.
A projeção vale para qualquer resultado da eleição. É justo registrar que o mercado reduziu essa previsão à medida que Flávio avançou nas pesquisas, segundo a Bloomberg Línea. Mas a queda já estava em curso.
A inflação esperada é o freio. O Focus projeta 5,22%, bem acima da meta de 3%. Com inflação nesse nível, o espaço para cortes rápidos fica menor.
Um plano sem números
O plano de governo de Flávio liga a queda dos juros à arrumação das contas públicas. Prevê um “tesouraço” sobre os gastos, o corte de pelo menos dez ministérios, novas regras fiscais e a revisão da reforma tributária. Não traz nenhuma meta para a Selic. Também não menciona o Banco Central nem sua autonomia, segundo a Forbes.
A equipe dá números soltos. Em agosto, o coordenador Rogério Marinho disse que a Selic poderia chegar a 12% ou 13% se o controle fiscal viesse cedo. Daniella Marques, coordenadora do programa, propôs cortes de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Sugeriu ainda arrecadar de R$ 200 bilhões a R$ 400 bilhões vendendo dívidas tributárias atrasadas, além de um fundo imobiliário e da antecipação de royalties do petróleo. Para o Ministério da Fazenda, foram citados Adolfo Sachsida, Marcelo Kayath, Roberto Campos Neto, Mansueto Almeida e Gustavo Montezano. Nenhum nome foi apresentado para o Banco Central.
O próprio Kayath chamou de inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, informou o Terra. É o mesmo valor que Flávio prometeu liberar no debate.
Os bancos também são cautelosos. O Goldman Sachs vê pouco espaço no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste. O Inter só vê cortes mais rápidos com um pacote fiscal crível. O JPMorgan espera uma pausa até abril. O Santander projeta Selic perto de 11% no fim de 2027.
Ex-presidentes do Banco Central, Arminio Fraga e Henrique Meirelles esperam que Flávio evite detalhar o ajuste. Analistas lembram que um Congresso fragmentado limitaria o que ele conseguiria aprovar. Há ainda quem conteste a própria premissa. Para o economista heterodoxo Luiz Gonzaga Belluzzo, cortar gastos não derruba os juros e recairia sobre os mais pobres.
Nem tudo o que Flávio disse no debate estava errado. A agência Lupa considerou verdadeira sua afirmação de que a dívida bruta chega a R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB. Nenhuma agência de checagem avaliou ainda a promessa sobre os juros.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele sustenta que os juros estão altos por causa do gasto público e que o corte de despesas devolverá a confiança ao mercado, permitindo uma queda rápida da Selic. Promete liberar mais de R$ 200 bilhões no orçamento com o tesouraço.
O diagnóstico de Flávio sobre o peso da dívida tem base nos números. A promessa, não. Juros caem quando o Copom vê inflação controlada e contas críveis, e o plano não mostra nenhuma das duas coisas em detalhe. Sem meta, sem plano fiscal fechado e sem um nome para o Banco Central, “muito rápida” é uma frase de debate, não uma política econômica.
Fontes
- Se eleito, Flávio diz que a taxa de juros vai cair “de forma muito rápida” — Metrópoles
- Economia no debate: Lula e Flávio Bolsonaro falam de dívida e juros — ND+
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Estimativa para a Selic ao fim de 2026 passa de 13,50% para 13,25% — Diario de Pernambuco
- Mercado reduz previsão para Selic a 13,25% com avanço de Flávio Bolsonaro nas eleições — Bloomberg Línea
- Favoritismo de Flávio Bolsonaro pode acelerar cortes da Selic? — InfoEconomics
- Marinho diz que juros podem cair até 12% com Flávio Bolsonaro — Eu Quero Investir
- Ao vivo: checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band — Lupa



