Economia

Flávio promete juros em queda 'muito rápida', sem meta nem Banco Central

No debate da Band, Flávio disse que os juros cairão 'de uma forma muito rápida'; seu plano não traz trajetória para a Selic nem cita o Banco Central.

Prédio alto com fachada de vidro escuro e colunas claras, fotografado de baixo para cima ao entardecer, com um poste aceso à esquerda.
O edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília (foto de arquivo de fevereiro de 2015).Foto: Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro fez uma promessa que todo brasileiro endividado gostaria de ouvir. Se eleito, disse, os juros vão começar a cair “de uma forma muito rápida”. A culpa pelos juros altos, segundo ele, é do gasto do governo.

Na mesma noite, prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no orçamento. Também propôs comprar as dívidas de pessoas e empresas junto aos bancos. Não explicou com que dinheiro.

Quem decide os juros

A taxa básica de juros do país, a Selic, não é definida pelo presidente. Quem decide é o Comitê de Política Monetária (Copom), formado pela diretoria do Banco Central. O presidente indica os diretores, mas não fixa a taxa.

A Selic já está em queda. Em 16 de setembro, o Copom fez o quinto corte seguido e levou a taxa a 13,75% ao ano. O boletim Focus é a pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado. Em 13 de outubro, projetava Selic de 13,25% no fim de 2026 e de 12% no fim de 2027.

A projeção vale para qualquer resultado da eleição. É justo registrar que o mercado reduziu essa previsão à medida que Flávio avançou nas pesquisas, segundo a Bloomberg Línea. Mas a queda já estava em curso.

A inflação esperada é o freio. O Focus projeta 5,22%, bem acima da meta de 3%. Com inflação nesse nível, o espaço para cortes rápidos fica menor.

Um plano sem números

O plano de governo de Flávio liga a queda dos juros à arrumação das contas públicas. Prevê um “tesouraço” sobre os gastos, o corte de pelo menos dez ministérios, novas regras fiscais e a revisão da reforma tributária. Não traz nenhuma meta para a Selic. Também não menciona o Banco Central nem sua autonomia, segundo a Forbes.

A equipe dá números soltos. Em agosto, o coordenador Rogério Marinho disse que a Selic poderia chegar a 12% ou 13% se o controle fiscal viesse cedo. Daniella Marques, coordenadora do programa, propôs cortes de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Sugeriu ainda arrecadar de R$ 200 bilhões a R$ 400 bilhões vendendo dívidas tributárias atrasadas, além de um fundo imobiliário e da antecipação de royalties do petróleo. Para o Ministério da Fazenda, foram citados Adolfo Sachsida, Marcelo Kayath, Roberto Campos Neto, Mansueto Almeida e Gustavo Montezano. Nenhum nome foi apresentado para o Banco Central.

O próprio Kayath chamou de inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, informou o Terra. É o mesmo valor que Flávio prometeu liberar no debate.

Os bancos também são cautelosos. O Goldman Sachs vê pouco espaço no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste. O Inter só vê cortes mais rápidos com um pacote fiscal crível. O JPMorgan espera uma pausa até abril. O Santander projeta Selic perto de 11% no fim de 2027.

Ex-presidentes do Banco Central, Arminio Fraga e Henrique Meirelles esperam que Flávio evite detalhar o ajuste. Analistas lembram que um Congresso fragmentado limitaria o que ele conseguiria aprovar. Há ainda quem conteste a própria premissa. Para o economista heterodoxo Luiz Gonzaga Belluzzo, cortar gastos não derruba os juros e recairia sobre os mais pobres.

Nem tudo o que Flávio disse no debate estava errado. A agência Lupa considerou verdadeira sua afirmação de que a dívida bruta chega a R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB. Nenhuma agência de checagem avaliou ainda a promessa sobre os juros.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele sustenta que os juros estão altos por causa do gasto público e que o corte de despesas devolverá a confiança ao mercado, permitindo uma queda rápida da Selic. Promete liberar mais de R$ 200 bilhões no orçamento com o tesouraço.

O diagnóstico de Flávio sobre o peso da dívida tem base nos números. A promessa, não. Juros caem quando o Copom vê inflação controlada e contas críveis, e o plano não mostra nenhuma das duas coisas em detalhe. Sem meta, sem plano fiscal fechado e sem um nome para o Banco Central, “muito rápida” é uma frase de debate, não uma política econômica.

Fontes