Opinião

Quem defendia a Lava Jato não pode entregar a bandeira a Flávio

Opinião: quem defendeu a Lava Jato não deve apoiar Flávio, que chamou a PEC da Blindagem de 'sobrevivência' e é investigado no STF.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

Flávio Bolsonaro, de máscara cirúrgica azul e camisa branca, fala a jornalistas entre câmeras de televisão e microfones.
Flávio Bolsonaro concede entrevista no Senado, em Brasília, em maio de 2021 (foto de arquivo).Foto: Senado Federal / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em setembro de 2025, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado rejeitou por 26 votos a 0 a PEC da Blindagem. A proposta de emenda à Constituição (PEC) protegia parlamentares de processos. Ela nunca foi votada no plenário. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a defendeu e disse que era “sobrevivência”.

Esta coluna é opinião. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não podemos fingir que isso é detalhe. Essa bandeira não pode ficar com quem defendeu uma blindagem para parlamentares.

O histórico que a bandeira não comporta

Em 13 de maio de 2026, Flávio confirmou ter buscado “patrocínio privado” para um filme sobre o pai. Pela manhã, ele havia chamado a história de mentira. À noite, confirmou o pedido. Segundo a Intercept, Vorcaro, banqueiro do Banco Master, se comprometeu a pagar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, pelo filme.

Em 16 de novembro de 2025, véspera da prisão de Vorcaro, Flávio escreveu ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. Hoje ele é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas (saída ilegal de dinheiro do país) e corrupção. Ser investigado não é ser réu: até agora, não há denúncia contra ele nesse caso. O site de checagem Aos Fatos contou ao menos 43 declarações falsas dele sobre Vorcaro.

A agência de checagem Lupa classificou como falsa a afirmação de Flávio de que os detalhes do contrato e do fundo já tinham sido mostrados. A checagem trata da entrevista ao Jornal Nacional, em agosto. A Lupa também considerou incompleta a afirmação de que não houve dinheiro da Lei Rouanet, que financia projetos culturais. Segundo a Lupa, o produtor do filme pediu R$ 8,59 milhões à Rouanet e teve o pedido recusado.

Na rachadinha, em que assessores devolvem parte do salário, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio em 2020. As provas foram anuladas por falhas processuais, não por mérito. Em 2022, a Justiça do Rio rejeitou a denúncia por causa dessas provas anuladas. Anulado não é inocentado: ele nunca foi julgado.

No debate da Band, em 18 de outubro, Flávio recusou o desafio de Lula para abrir seus sigilos bancários e telefônicos.

Seis registros colocam Flávio em conflito com a bandeira anticorrupção Fatos documentados de 2020 a 2026, por data

Data Registro
2020 Denunciado pelo MP-RJ no caso da rachadinha; nunca julgado
2022 Denúncia rejeitada pela Justiça do Rio porque dependia de provas anuladas
Set. 2025 PEC da Blindagem rejeitada por 26 a 0 na CCJ, sem votação no plenário
16 nov. 2025 Mensagem a Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”
Mai. 2026 Confirma pedido de patrocínio a Vorcaro, depois de chamar a história de mentira
Jul. 2026 Investigado no STF por suspeitas de lavagem, evasão de divisas e corrupção

Fonte: Ministério Público do RJ, STF, CCJ do Senado, Aos Fatos, Lupa, Poder360, Intercept. Elaboração: redação.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele disse que a PEC da Blindagem era “sobrevivência”, em setembro de 2025. Sobre Vorcaro, afirma que o dinheiro era privado e lícito e que o fato de ser senador não deu nenhuma vantagem a Vorcaro (CNN Brasil, 16 de outubro de 2026).

Os argumentos contra, e o que admitimos

O leitor de direita vai lembrar que Lula foi condenado na Lava Jato, e tem razão no fato. Mas as condenações de Lula foram anuladas em 2021 por incompetência do foro de Curitiba, não por absolvição no mérito, segundo a CNN Brasil. Admitimos o ponto, e a resposta é a mesma para Flávio: a rachadinha caiu por anulação de provas, e ele é investigado agora, no STF.

Outro argumento é que “o mercado prefere Flávio”. A Bolsa subiu quando ele liderou o primeiro turno, e isso é um fato. Mas, no dia em que o áudio com Vorcaro veio à tona, a Bolsa caiu 1,80%, segundo o Metrópoles. Aposta de curto prazo não é projeto de país.

Críticos da própria direita já se manifestaram. Romeu Zema (Novo) disse que ouvir Flávio pedir dinheiro a Vorcaro foi “imperdoável” e “um tapa na cara” dos brasileiros de bem, segundo o BP Money. Ele também disse que não apoiaria quem se aproximou de Vorcaro. Hoje Zema apoia Flávio no segundo turno. Kim Kataguiri (Missão) disse que “a direita brasileira não pode ser refém de bandido”. Ele ainda não apoia Flávio.

O argumento mais forte contra esta coluna é outro. Boa parte da direita já está com Flávio, e muitos eleitores acham que derrotar o PT importa mais que qualquer crítica a ele. Reconhecemos isso. Esta coluna não tenta convencer o bolsonarista convicto, e sim quem ainda está em dúvida.

O que isso significa

Não pedimos que você goste de Lula. Pedimos que a bandeira anticorrupção não seja entregue a quem chamou uma blindagem de sobrevivência, tem uma investigação aberta no STF e não abriu os próprios sigilos num debate. Os registros estão documentados e podem ser conferidos pelo eleitor.

Este é um argumento de mal menor para a direita. Não dizemos que Lula é de direita, nem que ele é um modelo de honestidade. Votar em Lula é votar no PT, e admitimos isso.

Em 25 de outubro, a escolha é entre dois nomes. Para a direita, o peso dessa escolha vai além da eleição: quem vencer a disputa de 2026 será cobrado pelo que fizer com a pauta anticorrupção.

A aposta é de longo prazo. Segundo esta coluna, um governo Flávio amarra a marca da direita à família Bolsonaro e ao caso Vorcaro. Uma oposição forte, com um nome sem esse histórico, tem mais chances de chegar a 2030 com a bandeira limpa.

Como fizemos: Esta coluna é opinião assinada. Os fatos vêm do dossiê de pesquisa de 19 de outubro de 2026 e das fontes em Fontes. A contagem de 43 declarações falsas é do Aos Fatos, não é contagem nossa. As checagens da Lupa sobre a entrevista ao Jornal Nacional são citadas, não recalculadas. As falas de Zema e Kataguiri, a anulação das condenações de Lula e a queda da Bolsa no dia do áudio vêm de reportagens citadas no texto, fora do dossiê, e não foram recalculadas por nós.

Fontes