Falsa direita: o histórico que Flávio não mostra
Da rachadinha, denunciada e nunca julgada, aos aliados presos pela PF: o histórico documentado que a campanha de Flávio Bolsonaro prefere não mostrar.
Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

No debate da Band, em 18 de outubro, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir seus sigilos bancário e telefônico. Ele recusou. Naquela noite, as buscas por “Flávio rachadinha” passaram de 50 mil, registrou o Poder360. O histórico que a campanha evita mostrar explica o interesse.
Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não julgamos ninguém sem processo. Mas também não podemos aceitar que um caso nunca chegue a ser julgado. O registro está aí, em documentos e anais.
Uma denúncia que nunca foi julgada
Em outubro de 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou 17 pessoas, entre elas Flávio e o ex-assessor Fabrício Queiroz. As acusações eram peculato — desvio de dinheiro público —, lavagem, apropriação indébita e organização criminosa, noticiou a Agência Brasil. Segundo a denúncia, Queiroz recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos de assessores e sacou cerca de R$ 2,9 milhões em dinheiro.
O caso nunca chegou a julgamento. O Superior Tribunal de Justiça anulou as quebras de sigilo em 2021, por falta de justificativa adequada. O Supremo Tribunal Federal (STF) anulou 4 dos 5 relatórios do Coaf, o órgão que monitora movimentações financeiras, mas manteve o primeiro — R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas. Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia por se apoiar em provas anuladas; o relator notou que a conduta descrita podia configurar crimes.
Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes negou os últimos recursos do Ministério Público e fez uma ressalva: a anulação não impede nova denúncia. Denunciado, nunca julgado. Anulado não é inocentado. Em abril, o próprio Flávio prometeu enfrentar o assunto de frente; no debate, preferiu não abrir os sigilos.
E há o caso Vorcaro: “mentira” de manhã, confirmação à noite. Segundo as apurações, ele negociou US$ 24 milhões do banqueiro do Master para um filme sobre o pai. A Polícia Federal (PF) o investiga no STF por lavagem, corrupção e evasão de divisas. O Aos Fatos contou 43 declarações falsas dele sobre o caso.
Uma semana, duas posições
A Petrobras segue o mesmo padrão. Em 2022, ele disse em entrevista que o pai já havia liberado estudos de privatização da estatal. Em dezembro de 2025, afirmou à Reuters que as partes que não funcionam poderiam ser privatizadas.
O plano de governo registrado em agosto retoma privatizações “caso a caso”, sem citar a Petrobras. Em 9 de outubro, chamou o assunto de “boataria”. No dia 16, o Aos Fatos concluiu que ele omitia as próprias declarações anteriores ao negar.
Na escala 6x1, a jornada de seis dias de trabalho por um de folga, foi igual. No dia 6 de outubro, ele era contra o fim da jornada; segundo o Intercept, defendia contratos com horários flexíveis. No dia 14, votou a favor, nas duas rodadas — a proposta passou por 75 a 1. No dia 16, prometeu não reverter o fim da escala: uma convicção que durou dez dias.
No capítulo “lei e ordem”, o registro também pesa. Flávio homenageou o ex-policial Adriano da Nóbrega, depois apontado como chefe de milícia, em 2003 e 2005 — inclusive com uma medalha proposta quando ele estava preso, relatou o Exame. Deu “apoio integral, 100%” a Márcio Canella, preso pela PF em 15 de outubro; segundo a corporação, o grupo dele lavou R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis. Apoiava Rodrigo Bacellar, apontado pela PF, em relatório final, como liderança do “núcleo político” do Comando Vermelho.
Na segurança, o detalhe que diz muito: ele chamou de “detalhezinho” o projeto que acaba com a marcação de munição, a gravação que permite rastrear cartuchos usados no crime. Em março de 2022, ele pressionou a comissão do Senado para votar o texto original. O plano de segurança promete endurecer penas; o histórico mostra escolhas como essa.
O currículo no Senado completa o quadro. Ele votou a favor da reforma da previdência em 2019 e, em 2025, da redução das penas de 8 de janeiro. Foi contra o arcabouço fiscal e a reforma tributária de 2023. Faltou a 43% das votações nominais de 2026 até junho, apontou a Folha; em sete anos, só duas proposições de sua autoria passaram pela Casa.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele nega a rachadinha, culpa Queiroz, chama a investigação de perseguição política e sustenta que as provas foram obtidas de forma ilegal. Sobre a Petrobras, nega qualquer plano de privatização e classifica o assunto como “boataria”. Sobre os aliados presos, diz ter sido surpreendido, defende o direito de defesa e afirma que quem tiver vínculo comprovado com facções “tem que pagar dentro da lei”.
O histórico está documentado em inquéritos, anais e checagens. O que a campanha não mostra é exatamente o que o eleitor de direita precisa ver antes do dia 25. Quem se apresenta como guardião da lei e da verdade não pode tratá-los como detalhezinho.
Fontes
- MP do Rio denuncia 17 investigados por lavagem de dinheiro e peculato — Agência Brasil
- Gilmar nega pedido para reabrir ação contra Flávio por rachadinha — Poder360
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360
- Flávio Bolsonaro descarta privatização da Petrobras como boataria — InfoMoney
- Como Flávio Bolsonaro votou sobre o fim da escala 6x1 no Senado — Exame
- Flávio Bolsonaro se ausentou em 43% das votações nominais do Senado em 2026 — Estado de Minas
- Flávio chama de “detalhezinho” projeto para retirar marcação de munições — Metrópoles
- Bacellar atua como liderança do “núcleo político” do Comando Vermelho, diz Polícia Federal — JB



