Opinião

Falsa direita: o histórico que Flávio não mostra

Da rachadinha, denunciada e nunca julgada, aos aliados presos pela PF: o histórico documentado que a campanha de Flávio Bolsonaro prefere não mostrar.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

O senador Flávio Bolsonaro discursa em pé junto à bancada no plenário do Senado Federal.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em pronunciamento no plenário do Senado Federal, em Brasília (foto de arquivo de 15 de abril de 2026).Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No debate da Band, em 18 de outubro, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir seus sigilos bancário e telefônico. Ele recusou. Naquela noite, as buscas por “Flávio rachadinha” passaram de 50 mil, registrou o Poder360. O histórico que a campanha evita mostrar explica o interesse.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não julgamos ninguém sem processo. Mas também não podemos aceitar que um caso nunca chegue a ser julgado. O registro está aí, em documentos e anais.

Uma denúncia que nunca foi julgada

Em outubro de 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou 17 pessoas, entre elas Flávio e o ex-assessor Fabrício Queiroz. As acusações eram peculato — desvio de dinheiro público —, lavagem, apropriação indébita e organização criminosa, noticiou a Agência Brasil. Segundo a denúncia, Queiroz recebeu R$ 2,06 milhões em 483 depósitos de assessores e sacou cerca de R$ 2,9 milhões em dinheiro.

O caso nunca chegou a julgamento. O Superior Tribunal de Justiça anulou as quebras de sigilo em 2021, por falta de justificativa adequada. O Supremo Tribunal Federal (STF) anulou 4 dos 5 relatórios do Coaf, o órgão que monitora movimentações financeiras, mas manteve o primeiro — R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas. Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia por se apoiar em provas anuladas; o relator notou que a conduta descrita podia configurar crimes.

Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes negou os últimos recursos do Ministério Público e fez uma ressalva: a anulação não impede nova denúncia. Denunciado, nunca julgado. Anulado não é inocentado. Em abril, o próprio Flávio prometeu enfrentar o assunto de frente; no debate, preferiu não abrir os sigilos.

E há o caso Vorcaro: “mentira” de manhã, confirmação à noite. Segundo as apurações, ele negociou US$ 24 milhões do banqueiro do Master para um filme sobre o pai. A Polícia Federal (PF) o investiga no STF por lavagem, corrupção e evasão de divisas. O Aos Fatos contou 43 declarações falsas dele sobre o caso.

Uma semana, duas posições

A Petrobras segue o mesmo padrão. Em 2022, ele disse em entrevista que o pai já havia liberado estudos de privatização da estatal. Em dezembro de 2025, afirmou à Reuters que as partes que não funcionam poderiam ser privatizadas.

O plano de governo registrado em agosto retoma privatizações “caso a caso”, sem citar a Petrobras. Em 9 de outubro, chamou o assunto de “boataria”. No dia 16, o Aos Fatos concluiu que ele omitia as próprias declarações anteriores ao negar.

Na escala 6x1, a jornada de seis dias de trabalho por um de folga, foi igual. No dia 6 de outubro, ele era contra o fim da jornada; segundo o Intercept, defendia contratos com horários flexíveis. No dia 14, votou a favor, nas duas rodadas — a proposta passou por 75 a 1. No dia 16, prometeu não reverter o fim da escala: uma convicção que durou dez dias.

No capítulo “lei e ordem”, o registro também pesa. Flávio homenageou o ex-policial Adriano da Nóbrega, depois apontado como chefe de milícia, em 2003 e 2005 — inclusive com uma medalha proposta quando ele estava preso, relatou o Exame. Deu “apoio integral, 100%” a Márcio Canella, preso pela PF em 15 de outubro; segundo a corporação, o grupo dele lavou R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis. Apoiava Rodrigo Bacellar, apontado pela PF, em relatório final, como liderança do “núcleo político” do Comando Vermelho.

Na segurança, o detalhe que diz muito: ele chamou de “detalhezinho” o projeto que acaba com a marcação de munição, a gravação que permite rastrear cartuchos usados no crime. Em março de 2022, ele pressionou a comissão do Senado para votar o texto original. O plano de segurança promete endurecer penas; o histórico mostra escolhas como essa.

O currículo no Senado completa o quadro. Ele votou a favor da reforma da previdência em 2019 e, em 2025, da redução das penas de 8 de janeiro. Foi contra o arcabouço fiscal e a reforma tributária de 2023. Faltou a 43% das votações nominais de 2026 até junho, apontou a Folha; em sete anos, só duas proposições de sua autoria passaram pela Casa.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele nega a rachadinha, culpa Queiroz, chama a investigação de perseguição política e sustenta que as provas foram obtidas de forma ilegal. Sobre a Petrobras, nega qualquer plano de privatização e classifica o assunto como “boataria”. Sobre os aliados presos, diz ter sido surpreendido, defende o direito de defesa e afirma que quem tiver vínculo comprovado com facções “tem que pagar dentro da lei”.

O histórico está documentado em inquéritos, anais e checagens. O que a campanha não mostra é exatamente o que o eleitor de direita precisa ver antes do dia 25. Quem se apresenta como guardião da lei e da verdade não pode tratá-los como detalhezinho.

Fontes