Opinião

Falsa direita: sete valores que Flávio traiu

Sete valores da direita, da luta anticorrupção à fé: cada um tem um fato documentado do histórico de Flávio Bolsonaro a contrariá-lo no segundo turno.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

O Congresso Nacional iluminado à noite em verde e amarelo, com as duas torres e as cúpulas do prédio.
O Congresso Nacional, em Brasília, iluminado nas cores da bandeira durante a Semana da Pátria (foto de arquivo de setembro de 2017).Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A direita brasileira se apresenta em sete valores: combate à corrupção, lei e ordem, patriotismo e soberania, responsabilidade fiscal, mérito e trabalho, coerência e fé. A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) veste os sete. O histórico dele já contrariou cada um.

O rótulo desta coluna é opinião — e a palavra “traiu” é minha. Os fatos abaixo são documentos, com data, número e fonte: inquéritos da Polícia Federal (PF), registros do Supremo Tribunal Federal (STF), anais do Senado e checagens. Um por valor. O leitor de direita reconhecerá, em cada item, o padrão que sempre cobrou dos adversários.

Os valores do Estado

Combate à corrupção: na rachadinha, o Ministério Público do Rio denunciou-o por peculato — desvio de dinheiro público — e lavagem em 2020. Ele nunca foi julgado: as provas foram anuladas por vício, não no mérito, e anulado não é inocentado. Chamou de “irmão” o banqueiro Daniel Vorcaro e, segundo apurações, negociou com ele US$ 24 milhões para um filme sobre o pai. A PF o investiga no STF.

Lei e ordem: homenageou o ex-policial Adriano da Nóbrega, depois apontado como chefe de milícia, em 2003 e 2005 — com uma medalha proposta quando ele estava preso, relatou o Exame. Deu “apoio integral, 100%” a Márcio Canella, preso pela PF em 15 de outubro; segundo a corporação, o grupo dele lavou R$ 7,6 bilhões em postos. E chamou de “detalhezinho” o projeto que acaba com a marcação de munição, a gravação que rastreia cartuchos do crime.

Patriotismo e soberania: em julho de 2025, agradeceu a Donald Trump pelo tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros; arrependido, apagou o post, contou à CNN Brasil. O irmão Eduardo foi condenado pelo STF a 4 anos e 2 meses por buscar tarifas e sanções americanas para travar o julgamento do pai. E, no discurso que fez na CPAC, a conferência conservadora americana, no Texas, pediu que o “mundo livre” vigiasse a eleição brasileira.

Responsabilidade fiscal e livre mercado: no debate da Band, prometeu comprar as dívidas das famílias junto aos bancos, noticiou o Metrópoles. Prometeu também salário mínimo acima da inflação e ampliar o Bolsa Família — sem dizer de onde vem o dinheiro. No 6x1 — seis dias de trabalho por um de folga —, disse que o governo deveria pagar a conta dos empresários. Um nome cotado para a própria equipe dele, Marcelo Kayath, chamou de inviável cortar R$ 200 bilhões em um ano.

Os valores da palavra

Mérito e trabalho: em sete anos de Senado, assinou 433 proposições como autor ou coautor. Só duas de sua autoria passaram pela Casa — loterias e reciclagem de baterias —, e ambas pararam na Câmara, informou o Terra. Faltou a 43% das votações nominais de 2026 até junho, contra média de 20% dos senadores, apurou a Folha. Quem quer comandar o país começa comparecendo.

Coerência e palavra: defendeu privatizar a Petrobras em 2022; em 2026, chama o assunto de “boataria”. Era contra o fim da escala 6x1 em 6 de outubro; no dia 14, votou a favor, com a proposta aprovada por 75 a 1. No caso Vorcaro, “mentira” de manhã, confirmação à noite. O Aos Fatos contou 43 declarações falsas dele só sobre esse caso.

Fé e família: batizou-se quatro vezes, e pastores ouvidos pela Agência Pública dizem que ele “não parece evangélico”. Silas Malafaia disse que a candidatura “não empolgou”, que preferia Tarsício e Michelle, e se recusou a organizar atos de campanha. O apoio evangélico caiu de 61% a 52%, mediu a Quaest. E o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou apagar seu post “Lula não feche minha igreja” por falta de base factual — a checagem evangélica Bereia já considerava a acusação falsa.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele nega irregularidade no caso Vorcaro, diz que o dinheiro era privado e lícito e classifica a investigação como perseguição política; na rachadinha, sustenta que as provas foram obtidas de forma ilegal. Afirma que não privatizará a Petrobras e chama o assunto de “boataria”. Sobre os aliados presos, diz ter sido surpreendido, defende o direito de defesa e afirma que quem tiver vínculo comprovado com facções “tem que pagar dentro da lei”.

Sete valores, sete contradições documentadas. Nenhuma delas exige gostar de Lula; todas exigem ler o histórico. Um governo Flávio passaria quatro anos explicando Vorcaro — e emprestaria o nome da direita a cada item desta lista. No dia 25, quem é de direita escolhe entre seus valores e um sobrenome — eu fico com os valores.

Fontes