Flávio não é a direita. É a família Bolsonaro
O candidato do PL é investigado no STF pelo caso Vorcaro, deu apoio integral a um aliado preso pela PF e faltou a 43% das votações do Senado em 2026.
Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

Na véspera da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, em novembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mandou a ele uma mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. O registro aparece nas reportagens do caso Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro que a Polícia Federal (PF) investiga no Supremo Tribunal Federal (STF).
Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, temos de encarar esse histórico antes do voto de 25 de outubro. Minha conclusão é direta: Flávio não é a direita. É a família Bolsonaro — um projeto de sobrenome, não de princípio.
O “irmão” do banqueiro
Segundo apurações do Intercept, Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — pelo filme. Ao menos US$ 10,6 milhões foram remetidos a um fundo no Texas, criado para um projeto imobiliário que nunca foi aprovado e administrado pelo advogado de Eduardo, Paulo Calixto. A PF aponta divergência contábil “severa”: mais de US$ 12 milhões saíram do país, e apenas US$ 2,8 milhões aparecem registrados de volta.
Em 13 de maio deste ano, Flávio chamou a história de mentira. Na mesma noite, confirmou ter buscado patrocínio privado para o filme e negou ter oferecido algo em troca. O ministro André Mendonça, do STF, o incluiu como investigado, a pedido da PF. As suspeitas: lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas — o envio ilegal de dinheiro ao exterior.
Flávio é investigado, não réu. O irmão Eduardo também é alvo do inquérito. Mas o Aos Fatos contou pelo menos 43 declarações falsas dele só sobre Vorcaro.
Em setembro de 2025, ele defendeu como “sobrevivência” a PEC da Blindagem, proposta de emenda à Constituição que protegeria parlamentares de processos. A comissão do Senado rejeitou o texto por 26 a 0.
Um projeto de família
O Senado mede o discurso pela realidade. Em sete anos, Flávio assinou 433 proposições como autor ou coautor. Só duas de sua autoria passaram pela Casa — uma sobre loterias, outra sobre reciclagem de baterias de carros elétricos —, e as duas seguem paradas na Câmara.
Neste ano eleitoral, ele faltou a 43% das 49 votações nominais até 22 de junho, contra média de 20% dos senadores, apontou levantamento da Folha. A assessoria dele não respondeu ao jornal. Quem defende mérito começa comparecendo.
O quadro se completa na família. O pai, condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão, escolheu o candidato de dentro da cadeia.
A mãe, a ex-vereadora Rogéria Bolsonaro, chegou a ser anunciada como suplente de Márcio Canella na corrida ao Senado. Suplente é quem assume a cadeira em caso de afastamento. Ela deixou a chapa antes da eleição.
Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, recebeu de Flávio “apoio integral, 100%” em abril. Em 15 de outubro, a PF o prendeu. Segundo a corporação, o grupo que ele liderava lavou cerca de R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis entre 2020 e 2026. Nenhuma evidência documentada liga Flávio pessoalmente a facções — mas os aliados que ele escolheu estão presos.
Até a Abin, a agência de inteligência do governo do pai, entrou na história. A revista Época revelou que a agência produziu relatórios para defender Flávio na rachadinha, o suposto desvio de salários de assessores do seu gabinete. O advogado dele confirmou que os documentos eram autênticos; a agência negou tê-los elaborado.
Não sou só eu. Kim Kataguiri (Missão) disse em maio: “A direita brasileira não pode ser refém de bandido”. A maioria dos críticos da direita fechou com Flávio no segundo turno, por antipetismo. Kataguiri segue sem apoiá-lo — e o que disse antes não deixou de ser verdade.
O que diz Flávio Bolsonaro: Sobre Vorcaro, ele afirma que o dinheiro era privado e lícito, que seu mandato não deu vantagem ao banqueiro e que a divergência se explica por um contrato descumprido. Sobre as prisões de aliados, diz ter sido surpreendido e defende o direito de defesa: quem tiver envolvimento comprovado com facções “tem que pagar dentro da lei”. Sobre as faltas no Senado, sua assessoria não respondeu à pesquisa da Folha.
Flávio não é a direita; é a família Bolsonaro. No dia 25, um eleitor de direita pode recusar o sobrenome sem trair a bandeira. O voto em Lula é tático: evita amarrar a marca da direita a esse histórico por quatro anos. Com um Congresso mais à direita fiscalizando, 2030 pode ser disputada com um candidato de verdade — e a direita não é patrimônio de família.
Fontes
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre envolvimento com Vorcaro — Aos Fatos
- O que Flávio Bolsonaro apresentou e aprovou em 7 anos como senador — Terra
- Flávio Bolsonaro se ausentou em 43% das votações nominais do Senado em 2026 — Estado de Minas
- Os elogios de Flávio Bolsonaro a Márcio Canella, preso pela PF — CartaCapital
- Flávio diz que foi surpreendido com prisões de Canella e Bacellar — CNN Brasil
- “Flávio é um bandido e a direita não pode ser refém”, diz Kataguiri — O Antagonista



