Opinião

Flávio não é a direita. É a família Bolsonaro

O candidato do PL é investigado no STF pelo caso Vorcaro, deu apoio integral a um aliado preso pela PF e faltou a 43% das votações do Senado em 2026.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

O então presidente Jair Bolsonaro ao lado dos filhos Flávio e Eduardo em uma reunião, com outras pessoas à mesa, no Congresso Nacional.
O então presidente Jair Bolsonaro com os filhos Flávio e Eduardo no Congresso Nacional, em Brasília (foto de arquivo de novembro de 2019).Foto: Carolina Antunes / Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na véspera da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, em novembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mandou a ele uma mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. O registro aparece nas reportagens do caso Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro que a Polícia Federal (PF) investiga no Supremo Tribunal Federal (STF).

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, temos de encarar esse histórico antes do voto de 25 de outubro. Minha conclusão é direta: Flávio não é a direita. É a família Bolsonaro — um projeto de sobrenome, não de princípio.

O “irmão” do banqueiro

Segundo apurações do Intercept, Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — pelo filme. Ao menos US$ 10,6 milhões foram remetidos a um fundo no Texas, criado para um projeto imobiliário que nunca foi aprovado e administrado pelo advogado de Eduardo, Paulo Calixto. A PF aponta divergência contábil “severa”: mais de US$ 12 milhões saíram do país, e apenas US$ 2,8 milhões aparecem registrados de volta.

Em 13 de maio deste ano, Flávio chamou a história de mentira. Na mesma noite, confirmou ter buscado patrocínio privado para o filme e negou ter oferecido algo em troca. O ministro André Mendonça, do STF, o incluiu como investigado, a pedido da PF. As suspeitas: lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas — o envio ilegal de dinheiro ao exterior.

Flávio é investigado, não réu. O irmão Eduardo também é alvo do inquérito. Mas o Aos Fatos contou pelo menos 43 declarações falsas dele só sobre Vorcaro.

Em setembro de 2025, ele defendeu como “sobrevivência” a PEC da Blindagem, proposta de emenda à Constituição que protegeria parlamentares de processos. A comissão do Senado rejeitou o texto por 26 a 0.

Um projeto de família

O Senado mede o discurso pela realidade. Em sete anos, Flávio assinou 433 proposições como autor ou coautor. Só duas de sua autoria passaram pela Casa — uma sobre loterias, outra sobre reciclagem de baterias de carros elétricos —, e as duas seguem paradas na Câmara.

Neste ano eleitoral, ele faltou a 43% das 49 votações nominais até 22 de junho, contra média de 20% dos senadores, apontou levantamento da Folha. A assessoria dele não respondeu ao jornal. Quem defende mérito começa comparecendo.

O quadro se completa na família. O pai, condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão, escolheu o candidato de dentro da cadeia.

A mãe, a ex-vereadora Rogéria Bolsonaro, chegou a ser anunciada como suplente de Márcio Canella na corrida ao Senado. Suplente é quem assume a cadeira em caso de afastamento. Ela deixou a chapa antes da eleição.

Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, recebeu de Flávio “apoio integral, 100%” em abril. Em 15 de outubro, a PF o prendeu. Segundo a corporação, o grupo que ele liderava lavou cerca de R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis entre 2020 e 2026. Nenhuma evidência documentada liga Flávio pessoalmente a facções — mas os aliados que ele escolheu estão presos.

Até a Abin, a agência de inteligência do governo do pai, entrou na história. A revista Época revelou que a agência produziu relatórios para defender Flávio na rachadinha, o suposto desvio de salários de assessores do seu gabinete. O advogado dele confirmou que os documentos eram autênticos; a agência negou tê-los elaborado.

Não sou só eu. Kim Kataguiri (Missão) disse em maio: “A direita brasileira não pode ser refém de bandido”. A maioria dos críticos da direita fechou com Flávio no segundo turno, por antipetismo. Kataguiri segue sem apoiá-lo — e o que disse antes não deixou de ser verdade.

O que diz Flávio Bolsonaro: Sobre Vorcaro, ele afirma que o dinheiro era privado e lícito, que seu mandato não deu vantagem ao banqueiro e que a divergência se explica por um contrato descumprido. Sobre as prisões de aliados, diz ter sido surpreendido e defende o direito de defesa: quem tiver envolvimento comprovado com facções “tem que pagar dentro da lei”. Sobre as faltas no Senado, sua assessoria não respondeu à pesquisa da Folha.

Flávio não é a direita; é a família Bolsonaro. No dia 25, um eleitor de direita pode recusar o sobrenome sem trair a bandeira. O voto em Lula é tático: evita amarrar a marca da direita a esse histórico por quatro anos. Com um Congresso mais à direita fiscalizando, 2030 pode ser disputada com um candidato de verdade — e a direita não é patrimônio de família.

Fontes