Justiça e Segurança

Flávio homenageou Adriano da Nóbrega preso e defendeu cabo acusado

Em 2005 Flávio homenageou Adriano da Nóbrega, preso na época. Em 2024, como advogado, assinou recurso para um cabo acusado da morte de Ana Clara.

Flávio Bolsonaro, de terno e gravata, concede entrevista cercado de jornalistas com microfones e celulares erguidos.
Flávio Bolsonaro concede entrevista a jornalistas em 30 de abril de 2026.Foto: Senado Federal / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 2005, quando o ex-policial Adriano da Nóbrega estava preso, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) o homenageou. A informação é da Exame, que apurou que a homenagem foi recebida por Adriano enquanto ele estava detido. Anos depois, as investigações apontaram Adriano como chefe de milícia. Flávio também o homenageou em 2003.

Milícias são grupos armados, em geral formados por policiais e ex-policiais, que passam a controlar bairros. Em 2007, num discurso na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Flávio classificou as milícias como uma nova forma de policiamento. A informação vem de um editorial do Estadão, lido aqui numa reprodução publicada por outro site. Não conferimos a gravação do discurso. O mesmo editorial, de 23 de setembro, viu risco de milícias chegarem ao topo do poder.

Em 2024, como advogado, Flávio assinou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). O objetivo era impedir que um cabo acusado da morte de Ana Clara, uma menina de 5 anos, fosse levado a júri popular. O STJ recusou o pedido. O júri ainda não aconteceu.

Em casos de homicídio doloso, o júri popular é formado por cidadãos sorteados, que julgam o acusado. Por isso o recurso buscava evitar essa etapa. A culpa do cabo ainda não foi decidida.

Armas: o voto e o estudo

Em 18 de junho de 2019, o Senado derrubou os decretos de Jair Bolsonaro que facilitavam a posse de armas, por 47 votos a 28. Flávio votou para manter os decretos.

Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) estimou que 6.379 vidas poderiam ter sido poupadas em 2019 a 2021 sem os decretos. O mesmo estudo encontrou que cada alta de 1% na circulação de armas está associada a uma alta de 1,1% nos homicídios.

São estimativas, não contagem de mortes. Ainda assim, o dado mostra o que estava em jogo naquela votação, e por que a discussão sobre armas tem consequências.

A defesa de Flávio

Flávio diz que advogar é um direito. No debate da Band, em 18 de outubro, ele disse que Lula não pode criminalizar a advocacia nem condenar um homem que ainda não foi julgado. Ele tem razão quanto ao princípio: todo acusado tem direito a defesa. No debate da Band, foi Lula quem levantou o tema, ao perguntar a Flávio sobre a defesa do cabo.

Mesmo assim, a escolha foi dele. Ele assinou o recurso num caso que envolve a morte de uma criança. Até um julgamento, o cabo é apenas acusado.

Outros aliados de Flávio já apareceram em casos da PF. Segundo a PF, Rodrigo Bacellar teria vazado informações de uma operação ao Comando Vermelho (CV). Márcio Canella, que Flávio apoiou para o Senado, foi preso pela PF. A marcação de munição também já foi tratada em reportagem do Auriverde.

O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da Band, em 18 de outubro de 2026, disse que Lula não pode criminalizar a advocacia nem condenar um homem sem julgamento. Ele sustenta que defender acusados é um direito do advogado.

O que pesa a favor de Flávio

Os registros também têm fatos favoráveis a ele. Flávio votou a favor do projeto antifacção, aprovado no Senado por 64 votos a 0, em dezembro de 2025. O projeto trata do combate a facções criminosas. Também foi relator do projeto que elimina a saidinha, aprovado por 62 votos a 2 em fevereiro de 2024. A saidinha permitia que presos deixassem a cadeia em feriados e datas especiais.

Em outubro de 2025, durante a megaoperação policial no Rio, ele arrecadou cerca de R$ 872 mil para as famílias de quatro policiais mortos. O número é da reportagem do Diário do Rio, e pode ter mudado desde então.

Registros de Flávio na pauta de segurança aparecem em homenagens, defesas e leis Registros documentados por ano, de 2003 a 2025

Ano Registro
2003 Homenagem a Adriano da Nóbrega
2005 Homenagem a Adriano da Nóbrega, então preso
2007 Discurso na Alerj sobre milícias, segundo editorial do Estadão
2019 Votou para manter os decretos de armas de Jair; o Senado os derrubou por 47 a 28
2024 Recurso ao STJ para tirar do júri o cabo acusado da morte de Ana Clara
2024 Relator do projeto que elimina a saidinha, aprovado por 62 a 2
2025 Voto a favor do projeto antifacção, aprovado por 64 a 0
2025 Arrecadação de cerca de R$ 872 mil para famílias de policiais mortos

Fonte: Exame; Estadão, citado pelo Sengerj; Terra; Congresso em Foco; Gazeta do Povo; Diário do Rio; O Tempo; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Elaboração: redação.

O que isso significa

O histórico de Flávio na segurança tem dois lados documentados. De um lado, leis mais duras que ele apoiou e relatou. De outro, homenagens a um ex-policial preso e a defesa de um cabo acusado da morte de uma criança.

Para o eleitor que escolhe pela lei e pela ordem, o fato mais grave documentado é este. Em 2005, Flávio homenageou um homem que estava preso. Anos depois, as investigações apontaram esse homem como chefe de milícia. Esse é o ponto de partida da conta para quem vota no domingo.

Para quem decide no dia 25 de outubro, o plano de segurança registrado no TSE prevê penas mais duras e mais presídios. Por isso o histórico importa: a promessa de rigor precisa ser checada contra as homenagens, a defesa e os aliados investigados. O júri do cabo ainda não aconteceu, e até lá ele é apenas acusado.

Como fizemos: Os registros vêm do dossiê de pesquisa sobre Flávio Bolsonaro, de 19 de outubro de 2026, e das reportagens listadas em Fontes. A fala de 2007 é conhecida pela citação num editorial do Estadão, reproduzido em outro site; não conferimos o texto original nem a gravação da Alerj. O valor de cerca de R$ 872 mil é o da reportagem do Diário do Rio. A votação de 47 a 28 vem do O Tempo. Os números de 6.379 vidas e de 1,1% são estimativas do FBSP, citadas como estão no estudo; não os recalculamos. Os dados não mostram por que Flávio votou como votou.

Fontes