No Chile, corte de gastos vem com PIB em queda e desemprego em alta
No Chile, o governo Kast corta gastos enquanto o PIB cai e o desemprego chega a 9,6%; no Brasil, a disputa de domingo pode repetir a receita.
Tribuna. Este texto expressa a posição de quem assina e não representa necessariamente a visão editorial do Auriverde.

No trimestre de junho a agosto de 2026, a taxa de desemprego do Chile chegou a 9,6%. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), o índice subiu 1 ponto percentual em doze meses. No segundo trimestre, a economia encolheu, e o governo seguiu com cortes de gastos.
Em 23 de outubro, a Agência Brasil publicou que o ajuste fiscal chileno convive com queda do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz, e com desemprego em alta. A pergunta é simples: o que o corte entrega em troca?
José Antonio Kast assumiu a presidência do Chile em 11 de março de 2026, com a promessa de encolher o Estado e reduzir impostos. A meta era cortar cerca de US$ 6 bilhões em gastos em 18 meses, segundo a agência de classificação de risco Fitch. O ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, conduz o ajuste, que atinge áreas como saúde e educação, segundo levantamento citado pela Agência Brasil.
O PIB caiu, mas a mineração puxou a queda
O Banco Central do Chile informou que o PIB do segundo trimestre recuou 0,2% na comparação com o mesmo período de 2025. A mineração caiu 6,4%, sobretudo por causa do cobre. Fora da mineração, a economia cresceu 0,7%.
O Imacec, indicador mensal de atividade, mostrou queda de 1% em agosto. A mineração recuou 17,4%, enquanto o restante da economia cresceu 1,4%. O motor da queda, portanto, é o cobre.
Essa leitura pede cuidado. O próprio Banco Central atribui a retração do cobre a minérios de menor teor e a paradas de manutenção. O corte de gastos não explica sozinho a queda. Os dados mostram coincidência com o ajuste, não prova de que ele causou a retração.
Mesmo assim, o gasto público também sustenta a economia fora da mineração. Para o economista Fernando Henrique Lemos Rodrigues, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e especialista no Chile, o governo “está freando a expansão dos gastos”. Segundo a Agência Brasil, ele também diz que os cortes de impostos para empresas reduzem a arrecadação sem aumentar o investimento privado.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou em outubro sua projeção de crescimento do Chile em 2026 para 0,6%. Em julho, a estimativa era 1,8%. Para o desemprego, o fundo prevê 9,5% neste ano.
Credibilidade fiscal e o caso brasileiro
A objeção mais forte é a da credibilidade. Um governo que gasta mais do que arrecada tem déficit, e a dívida cresce se o déficit persiste. Quando investidores desconfiam, cobram juros mais altos de todo o país.
Em março, a Fitch deu ao Chile nota A-, com perspectiva estável. A dívida pública ficou em 41,7% do PIB em 2025, estável pela primeira vez em duas décadas. A agência nota, porém, que parte dessa estabilidade vem do câmbio e do preço do cobre, e avisou que a meta de cortes seria difícil de cumprir. Sem cortes suficientes, o déficit poderia passar de 2% do PIB em 2026 e 2027.
A nossa resposta é que credibilidade vem de regras cumpridas, não de cortes feitos às pressas. Quando o PIB encolhe e o desemprego sobe, a arrecadação também cai. Um corte que derruba a atividade pode piorar a própria conta que pretende consertar. É um argumento de economia, e o caso ainda está em curso.
Os efeitos chegam ao atendimento básico. A Confusam, entidade que representa os funcionários da saúde municipal, estima uma redução de 18 bilhões de pesos na atenção primária. Esse atendimento, o básico de saúde, cobre cerca de 80% da população, segundo a presidente da entidade, Gabriela Flores.
O que diz o Ministério da Fazenda do Chile: Em 4 de junho, no Senado, o ministro Jorge Quiroz disse que os ajustes são “medidas de eficiência” (tradução nossa) e que a decisão sobre cortes não é tomada pela Fazenda. Em 29 de abril, afirmou que não há corte em nenhum benefício de nenhum aposentado (tradução nossa), segundo a Radio UChile.
O Brasil chega ao segundo turno, no domingo (25), com a mesma pergunta. Reportagem atribuída à Folha de S.Paulo, publicada em 8 de outubro, diz que a equipe econômica do candidato Flávio Bolsonaro (PL) estuda um pacote de cerca de R$ 250 bilhões, ou 2% do PIB, em despesas obrigatórias.
Entre as medidas em estudo, segundo a reportagem, estão limitar o reajuste de aposentadorias e do BPC à inflação, sem ganho real. O BPC é o benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Também está o fim dos pisos constitucionais de gasto em saúde (15% da receita corrente líquida da União) e educação (18% da receita de impostos). Nesse desenho, esses gastos seriam corrigidos só pela inflação.
A campanha diz que essas medidas não representam a posição oficial da candidatura. Em nota, afirmou: “A orientação econômica da candidatura não é definida por relatos ou ilações de terceiros.”
A lição chilena é direta. Cortar primeiro pode enfraquecer a economia, e o desemprego não espera a conta fechar. Ajustar as contas é possível sem sacrificar crescimento nem serviços, desde que a meta e a fonte da receita estejam claras. O Auriverde defende esse caminho, com o Sistema Único de Saúde (SUS), a educação e a Previdência tratados como prioridades do país.
O que vem a seguir? O orçamento chileno de 2027 prevê expansão de gasto de 1,5% do PIB, abaixo do que se projetava antes, segundo a Agência Brasil. No Brasil, o resultado das urnas no domingo dirá qual caminho será tentado.
Como fizemos: Usamos a publicação do INE sobre desemprego (trimestre de junho a agosto de 2026, divulgada em 30 de setembro), o Banco Central do Chile (PIB do segundo trimestre e Imacec de agosto), a projeção do FMI de outubro de 2026, a análise da Fitch de março de 2026 e as reportagens citadas, todas acessadas em 24 de outubro de 2026. Não fizemos cálculos próprios. Os dados chilenos são preliminares e podem ser revisados, e a relação entre os cortes e a queda do PIB não foi comprovada por estudo.
Fontes
- Em meio a ajuste fiscal, Chile tem queda do PIB e desemprego em alta — Agência Brasil
- Tasa de desocupación nacional fue 9,6% en el trimestre junio-agosto de 2026 — INE Chile (acesso em 24 de outubro de 2026)
- Imacec agosto 2026 — Banco Central de Chile (acesso em 24 de outubro de 2026)
- PIB nacional se contrae 0,2% en el segundo trimestre de 2026, arrastrado por una caída del 6,4% en la minería — Reporte Minero (acesso em 24 de outubro de 2026)
- Projeção do FMI para o Chile em 2026 e 2027 — Emol (acesso em 24 de outubro de 2026)
- Fitch advierte que Kast tendrá dificultades para ajustar las cuentas fiscales de Chile — Bloomberg Línea (acesso em 24 de outubro de 2026)
- Quiroz garantiza que PGU no sufrirá recortes — Radio UChile (acesso em 24 de outubro de 2026)
- Hacienda justifica recortes en Salud: Confusam advierte “desmantelamiento” de la atención primaria — Radio UChile (acesso em 24 de outubro de 2026)
- Flávio considera limitar reajuste de aposentadorias e BPC — Diário de Pernambuco (acesso em 24 de outubro de 2026)



