Opinião

Eleição brasileira se decide pelo voto, não por líderes estrangeiros

Opinião: Milei e Trump já pesaram sobre a disputa de 2026. A eleição é do eleitor brasileiro, e a soberania vale para todos os lados.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

Fachada do Palácio do Itamaraty, em Brasília, com colunas de concreto, vidros e um espelho d'água com plantas na frente
Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília.Foto: Lou Fernando / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No domingo, 25 de outubro, os brasileiros escolhem o presidente no segundo turno. Na terça-feira (20), o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, acusou o presidente argentino, Javier Milei, de tentar interferir na disputa. Esta é uma opinião, assinada pela redação do Auriverde.

Nossa posição é direta. A eleição brasileira se decide pelo voto dos brasileiros. Nenhum líder estrangeiro tem esse papel, seja qual for o candidato que ele apoia. Essa regra vale para quem vota em Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), e para quem vota em Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL).

Pressão de fora, em 2025 e em 2026

Em 20 de outubro, Milei compartilhou no X um vídeo de Lula. Ele escreveu que esperava que “o último truque sujo de campanha deles não inclua roubar a eleição”. Para o Itamaraty, as falas são uma “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”.

Milei já tinha tomado partido antes. No dia 25 de julho, num evento do PL, ele declarou apoio a Flávio e chamou Lula de “presidiário” e “ladrão”. Depois disso, o Brasil chamou seu embaixador em Buenos Aires para consultas.

Trump também elogiou o candidato. Em junho de 2026, escreveu: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca”. Elogio público é opinião de presidente. Mas a história não parou aí.

Em 30 de julho de 2025, Trump assinou uma ordem que acrescentou 40% de tarifa aos produtos brasileiros, chegando a 50%. A Casa Branca justificou a medida com o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro, deputado federal, comemorou a decisão e atribuiu o resultado ao lobby que ele e aliados faziam nos EUA “desde o início do ano”.

Em 2026, o padrão voltou. Em 1º de julho, Flávio enviou ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) um documento pedindo a suspensão de tarifas que poderiam entrar em vigor em 15 de julho. Segundo o Poder360, o texto dizia que tarifas aplicadas antes da votação poderiam fortalecer Lula politicamente.

Quem pode opinar, e quem pode pressionar

O melhor argumento do outro lado é este: líderes têm preferências. Milei e Trump podem dizer quem admiram, como qualquer eleitor. Um post não decide uma eleição.

Essa parte é verdadeira. Mas elogiar é diferente de pressionar. Pedir tarifas, sanções ou ataques ao sistema de votação é tentar mudar o resultado. É esse o ponto da nota do Itamaraty, e é esse o ponto deste texto.

O mesmo critério vale para Lula e para o PT. Em 5 de novembro de 2023, o partido declarou apoio a Sergio Massa, adversário de Milei na eleição argentina. A nota dizia: “Não temos dúvida em apoiar a candidatura de Sergio Massa”. Milei acusou o governo brasileiro de financiar a campanha, e reportagens sobre o caso informam que ele não apresentou provas.

Um partido que apoia um candidato no exterior faz política, e pode ser criticado por isso. Já um chefe de Estado que ataca a urna ou pede tarifas para influenciar a votação age de outro modo. A soberania exige a mesma régua para todos.

Os minerais estratégicos entram nessa conta. Em março de 2026, numa conferência conservadora nos EUA, Flávio disse que o Brasil poderia ajudar os americanos a reduzir a dependência da China. Em abril, Lula respondeu que o adversário “quer vender para os Estados Unidos algo que é muito importante para o Brasil”. A reportagem do Poder360 não registra resposta direta de Flávio.

Flávio também disse, em 7 de julho, que “eu não quero tarifa para o Brasil, só quem quer tarifa é o Lula”. A frase é clara. Mesmo assim, pedir a Washington que adie a medida para depois da urna também é tentar pesar no resultado.

A regra é simples. O voto conta, a urna pode ser conferida e as decisões sobre tarifas, minerais e instituições são tomadas no Brasil. Quem vencer no domingo governa com esse mandato. Quem perder pode discordar, mas não deve buscar um líder estrangeiro para reverter o voto.

O que diz o Itamaraty: Em nota de 20 de outubro, o ministério afirma que as falas de Milei são “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”. Até a publicação, não encontramos resposta pública de Milei nem do governo argentino à nota.

Como fizemos: Esta é uma opinião, baseada em reportagens e documentos citados nas fontes, acessados em 23 de outubro de 2026. Não fizemos cálculos próprios. A nota do Itamaraty foi conferida pela reprodução da Agência Brasil e de outros veículos, não no site oficial do ministério.

Fontes