Eleição brasileira se decide pelo voto, não por líderes estrangeiros
Opinião: Milei e Trump já pesaram sobre a disputa de 2026. A eleição é do eleitor brasileiro, e a soberania vale para todos os lados.
Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

No domingo, 25 de outubro, os brasileiros escolhem o presidente no segundo turno. Na terça-feira (20), o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, acusou o presidente argentino, Javier Milei, de tentar interferir na disputa. Esta é uma opinião, assinada pela redação do Auriverde.
Nossa posição é direta. A eleição brasileira se decide pelo voto dos brasileiros. Nenhum líder estrangeiro tem esse papel, seja qual for o candidato que ele apoia. Essa regra vale para quem vota em Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), e para quem vota em Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL).
Pressão de fora, em 2025 e em 2026
Em 20 de outubro, Milei compartilhou no X um vídeo de Lula. Ele escreveu que esperava que “o último truque sujo de campanha deles não inclua roubar a eleição”. Para o Itamaraty, as falas são uma “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”.
Milei já tinha tomado partido antes. No dia 25 de julho, num evento do PL, ele declarou apoio a Flávio e chamou Lula de “presidiário” e “ladrão”. Depois disso, o Brasil chamou seu embaixador em Buenos Aires para consultas.
Trump também elogiou o candidato. Em junho de 2026, escreveu: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca”. Elogio público é opinião de presidente. Mas a história não parou aí.
Em 30 de julho de 2025, Trump assinou uma ordem que acrescentou 40% de tarifa aos produtos brasileiros, chegando a 50%. A Casa Branca justificou a medida com o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro, deputado federal, comemorou a decisão e atribuiu o resultado ao lobby que ele e aliados faziam nos EUA “desde o início do ano”.
Em 2026, o padrão voltou. Em 1º de julho, Flávio enviou ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) um documento pedindo a suspensão de tarifas que poderiam entrar em vigor em 15 de julho. Segundo o Poder360, o texto dizia que tarifas aplicadas antes da votação poderiam fortalecer Lula politicamente.
Quem pode opinar, e quem pode pressionar
O melhor argumento do outro lado é este: líderes têm preferências. Milei e Trump podem dizer quem admiram, como qualquer eleitor. Um post não decide uma eleição.
Essa parte é verdadeira. Mas elogiar é diferente de pressionar. Pedir tarifas, sanções ou ataques ao sistema de votação é tentar mudar o resultado. É esse o ponto da nota do Itamaraty, e é esse o ponto deste texto.
O mesmo critério vale para Lula e para o PT. Em 5 de novembro de 2023, o partido declarou apoio a Sergio Massa, adversário de Milei na eleição argentina. A nota dizia: “Não temos dúvida em apoiar a candidatura de Sergio Massa”. Milei acusou o governo brasileiro de financiar a campanha, e reportagens sobre o caso informam que ele não apresentou provas.
Um partido que apoia um candidato no exterior faz política, e pode ser criticado por isso. Já um chefe de Estado que ataca a urna ou pede tarifas para influenciar a votação age de outro modo. A soberania exige a mesma régua para todos.
Os minerais estratégicos entram nessa conta. Em março de 2026, numa conferência conservadora nos EUA, Flávio disse que o Brasil poderia ajudar os americanos a reduzir a dependência da China. Em abril, Lula respondeu que o adversário “quer vender para os Estados Unidos algo que é muito importante para o Brasil”. A reportagem do Poder360 não registra resposta direta de Flávio.
Flávio também disse, em 7 de julho, que “eu não quero tarifa para o Brasil, só quem quer tarifa é o Lula”. A frase é clara. Mesmo assim, pedir a Washington que adie a medida para depois da urna também é tentar pesar no resultado.
A regra é simples. O voto conta, a urna pode ser conferida e as decisões sobre tarifas, minerais e instituições são tomadas no Brasil. Quem vencer no domingo governa com esse mandato. Quem perder pode discordar, mas não deve buscar um líder estrangeiro para reverter o voto.
O que diz o Itamaraty: Em nota de 20 de outubro, o ministério afirma que as falas de Milei são “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”. Até a publicação, não encontramos resposta pública de Milei nem do governo argentino à nota.
Como fizemos: Esta é uma opinião, baseada em reportagens e documentos citados nas fontes, acessados em 23 de outubro de 2026. Não fizemos cálculos próprios. A nota do Itamaraty foi conferida pela reprodução da Agência Brasil e de outros veículos, não no site oficial do ministério.
Fontes
- Itamaraty acusa Milei de tentar interferir na eleição brasileira — Agência Brasil via Acessa
- Itamaraty diz que Milei repete mentiras de quem tentou golpe — SBT News
- Itamaraty convoca embaixador argentino para transmitir repulsa por falas de Milei — Gazeta do Povo
- Trump elogia adversário de Lula em meio a novas tarifas — Sábado
- Fact Sheet: President Donald J. Trump Addresses Threats to the United States from the Government of Brazil — The White House
- Eduardo Bolsonaro agradece tarifa de Trump e pede apoio de sanções contra Moraes — InfoMoney
- Flávio pediu suspensão de tarifaço e propôs negociar se vencer — Poder360
- Eleições na Argentina: PT formaliza apoio a Massa em disputa contra Milei — O Povo
- Milei acusa Lula de financiar campanha “anti-Argentina” — SBT News
- Lula acusa Flávio Bolsonaro de querer vender o Brasil aos EUA — DNoticias
- Essa gente vai vender o Brasil, diz Lula sobre Flávio e Caiado — Poder360
- Flávio Bolsonaro discute terras raras e minerais nos EUA — Rádio Bandeirantes



