Opinião

O SUS é patrimônio nacional, e o segundo turno decide como ele é pago

Opinião: sete em cada dez pessoas que buscam atendimento vão à rede pública. Os planos de Lula e Flávio tratam o financiamento do SUS de formas diferentes.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

Mulher sorridente ao lado de uma geladeira com vacinas etiquetadas, em posto de vacinação de Brasília.
Vacinas guardadas em geladeira de posto de vacinação de Brasília, em foto de julho de 2016.Foto: Dênio Simões / Agência Brasília / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sete em cada dez pessoas que buscaram atendimento foram à rede pública. Esse número mostra o tamanho do Sistema Único de Saúde (SUS) na vida real.

Esta coluna é opinião. Defendemos que o SUS é patrimônio nacional. No domingo, 25 de outubro, o segundo turno decide como ele será pago e administrado.

Só 28,5% dos brasileiros tinham algum plano médico ou odontológico em 2019, ou 59,7 milhões de pessoas, segundo o IBGE. Para a maioria, o SUS é o caminho principal. A Constituição diz que a saúde é dever do Estado. Também prevê que a participação privada no sistema é complementar.

O que o sistema entrega

Em 2025, o Brasil fez 31 mil transplantes, um recorde. O número ficou 21% acima dos 25,6 mil de 2022, segundo a Agência Brasil. O SUS financia cerca de 86% desses procedimentos. Transplante exige equipes especializadas, transporte de órgãos e remédios de uso contínuo. Sem financiamento público, esse acesso dependeria da renda de cada pessoa.

A vacinação segue a mesma lógica. O Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973, oferece vacinas gratuitas em todo o país. Mesmo assim, a meta não foi atingida pela maioria das vacinas. Segundo dados do Ministério da Saúde citados pelo Metrópoles, só duas vacinas atingiram a meta de 95% em 2025. São a BCG, contra a tuberculose, e a hepatite B aplicada logo após o nascimento. Os dados não explicam sozinhos a queda. Mas uma rede de salas, geladeiras e agentes precisa de dinheiro previsível.

Dois caminhos para o mesmo sistema

O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL), entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), prevê contratar “serviços e exames na rede privada nos horários ociosos”. Segundo o texto, “aproveitar essa capacidade é atender mais sem construir do zero”. A proposta promete “uma remuneração que cubra o custo real do atendimento”. Mas a seção de saúde não traz nenhum valor de investimento.

O plano de Lula e Alckmin (PT), segundo análise do Futuro da Saúde, amplia a Estratégia Saúde da Família e cria uma “fila única digital ordenada pelo risco clínico”. Também mantém parcerias com hospitais privados. O governo federal atual já usa esse caminho. Em junho de 2025, anunciou que hospitais privados e filantrópicos poderão quitar dívidas com a União prestando serviços ao SUS, com teto anual de R$ 2 bilhões em créditos. Na ocasião, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que cerca de 3.537 hospitais e entidades filantrópicas devem aproximadamente R$ 34 bilhões à União, segundo o Poder360.

Os dois lados usam a capacidade privada. A diferença está em quem paga, quanto paga e quem decide.

O argumento de eficiência merece resposta séria. Há filas, e parte da estrutura privada fica ociosa em certos horários. Usar essa capacidade pode encurtar a espera por consultas e exames. Esse ganho é real.

A resposta está na conta. A Constituição trata a participação privada como complementar e dá preferência às entidades filantrópicas e sem fins lucrativos. Pagar o custo real do atendimento é uma exigência legítima. Sem valor de investimento na rede pública, o SUS corre um risco. Ele pode virar comprador de serviços, e não dono do próprio cuidado. Esse é o ponto em que o debate deveria começar: quanto custa, quem controla e quem responde quando a fila não anda.

Para quem vê o SUS como patrimônio nacional, o critério é simples. O próximo governo precisa dizer quanto vai investir na rede pública, e não só quanto vai contratar fora dela. Sem essa conta, a promessa de atender mais fica no papel. O domingo define se o SUS terá financiamento público firme ou dependerá de contratos caso a caso.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: No plano de governo, segundo reprodução da SBT News, a campanha afirma: “Para usar bem o que já existe, vamos contratar serviços e exames na rede privada nos horários ociosos.” No debate da Band, Flávio prometeu levar ao SUS o “padrão Einstein”.

Como fizemos: Usamos a PNS 2019 do IBGE, divulgada em 4 de setembro de 2020, por meio de reportagens que citam o levantamento, porque a página do IBGE não abriu para nós. Também usamos dados de transplantes da Agência Brasil (7 de maio de 2026), dados de vacinação do Ministério da Saúde citados pelo Metrópoles (14 de janeiro de 2026) e os textos dos planos de governo, conforme reproduzidos pela SBT News, além do resumo do Futuro da Saúde, acessados em 23 de outubro de 2026. Não fizemos cálculos novos. As campanhas não foram procuradas para esta coluna, e algumas páginas oficiais estavam desativadas por causa da legislação eleitoral. Os dados de 2019 são os mais recentes sobre cobertura de planos que encontramos.

Fontes