Justiça e Segurança

Os aliados de Flávio presos pela PF: Bacellar, Canella e o Comando Vermelho

Flávio deu 'apoio integral, 100%' a Márcio Canella e apoiou Rodrigo Bacellar para o governo do Rio; a PF acusa os dois de elos com o Comando Vermelho.

Fachada de dois prédios de vidro listrados em preto e branco, com o brasão da Polícia Federal no alto, sob céu azul.
A sede da Polícia Federal no Setor Comercial Norte, em Brasília (foto de arquivo de abril de 2023).Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na quinta-feira (15), a Polícia Federal (PF) prendeu Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado eleito. Seis meses antes, Flávio Bolsonaro havia declarado “apoio integral, 100%” à candidatura dele ao Senado. Canella é o segundo aliado de peso do senador no Rio a cair em investigações que passam pela facção criminosa Comando Vermelho (CV). A prisão ocorreu dez dias antes do segundo turno.

O primeiro foi Rodrigo Bacellar (União), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Em maio de 2025, Flávio sinalizou apoio a ele como sucessor do governador Cláudio Castro. Bacellar era o nome planejado do PL para o governo do estado.

O que a PF diz de cada um

Segundo a PF, Canella liderou um grupo que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis entre 2020 e 2026. Lavar dinheiro é dar aparência legal a recursos de origem criminosa.

A investigação reúne ainda um áudio obtido pela PF. Nele, um capitão da polícia negocia com chefes do CV a retirada de barricadas e diz ter influência sobre a prefeitura comandada por Canella. As reportagens consultadas não trazem manifestação da defesa dele.

O caso de Bacellar é mais antigo. A PF o acusa de vazar ao CV informações da Operação Zargun, uma ação policial que deveria ser sigilosa. No relatório final, a corporação afirma que ele exercia a liderança do “núcleo político” da facção.

Bacellar foi indiciado em fevereiro de 2026, ou seja, formalmente apontado pela polícia como suspeito. Depois, foi denunciado por obstrução de justiça e voltou a ser preso em março. Os advogados dele chamam as medidas de arbitrárias.

Nenhum dos dois foi condenado. São acusados, e a Justiça ainda vai analisar as provas.

A família no palanque

O apoio de Flávio a Canella não foi protocolar. Em abril, o senador o elogiou em público e prometeu apoio total à candidatura ao Senado. Em julho, a mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro, chegou a anunciar que seria suplente de Canella. Depois, desistiu.

Suplente é quem assume a vaga se o titular deixar o cargo. Por algumas semanas, a família do candidato a presidente esteve a um passo de dividir a chapa com um político hoje preso pela PF.

O registro não para em 2026. Em 2003 e 2005, Flávio homenageou o ex-policial Adriano da Nóbrega, depois apontado como chefe de milícia. Parentes de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio.

Há, porém, uma linha que os fatos não autorizam cruzar. Não existe prova documentada que ligue Flávio pessoalmente ao CV. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou, no dia 15, a remoção de uma publicação que fazia essa ligação sem base factual.

A régua vale para os dois lados. Uma semana antes, no dia 8, o mesmo TSE mandou apagar posts do próprio Flávio que associavam Lula ao CV e ao Primeiro Comando da Capital (PCC), também sem base. O PL afirma que o inquérito citado na publicação removida foi arquivado em 2022.

O que se pode afirmar é o que está nos documentos. Dois aliados escolhidos e promovidos por Flávio são acusados pela PF de servir ao crime organizado. Um deles era o candidato do partido ao governo do Rio.

O contraste com o discurso de campanha é evidente. O plano de governo de Flávio promete classificar o PCC, o CV e as milícias como organizações narcoterroristas, com bens bloqueados. Em maio, ele pediu aos Estados Unidos que fizessem o mesmo. Enquanto isso, no próprio estado, os aliados que apoiou acabaram na mira da PF.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirmou ter sido surpreendido pelas prisões e defendeu o direito de defesa dos acusados. Disse que quem tiver vínculo comprovado com o PCC ou o CV “tem que pagar dentro da lei”.

O candidato que promete tratar facções como terroristas escolheu mal os aliados que levaria ao poder no Rio. A surpresa alegada não apaga o “apoio integral, 100%” nem a vaga oferecida à mãe. No dia 25, o eleitor decide se confia o país a quem confiou o Rio a essas pessoas.

Fontes