Justiça e Segurança

STF investiga Flávio por lavagem, corrupção e evasão de divisas

A PF aponta divergência 'severa': mais de US$ 12 milhões saíram do país e só US$ 2,8 milhões constam como retorno; foram pedidos 90 dias a mais.

O prédio-sede do Supremo Tribunal Federal, com a fachada de colunas diante da Praça dos Três Poderes, sob céu claro, em Brasília.
Sede do Supremo Tribunal Federal (STF), na Praça dos Três Poderes, em Brasília (foto de arquivo de julho de 2011).Foto: Leandro Ciuffo / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Polícia Federal (PF) classifica como “severa” a diferença entre o dinheiro que saiu do Brasil e o que consta de volta no caso Dark Horse. Segundo a emissora alemã Deutsche Welle (DW), em reportagem publicada pelo jornal O Povo, mais de US$ 12 milhões foram enviados ao exterior. Apenas US$ 2,8 milhões aparecem registrados como retorno.

O inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) investiga Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e candidato à Presidência. Na sexta-feira (16), a PF pediu mais 90 dias para encerrar os trabalhos. O pedido foi relatado nesta segunda-feira (19) pelo site ConJur. Ainda não há decisão do ministro André Mendonça, que conduz o caso.

O inquérito apura suspeitas de três crimes: lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas — a saída não declarada de recursos para o exterior. Ele foi aberto por Mendonça em 22 de julho, a pedido da PF e com concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR), o órgão que comanda a acusação pública no país.

Segundo a Agência Brasil, o ministro incluiu Flávio entre os investigados. O irmão do senador, Eduardo Bolsonaro, também é alvo.

Inquérito é a fase da apuração, anterior a qualquer denúncia. No caso, Flávio é investigado, não réu. Nos processos do pai — o do golpe, o das joias da Arábia Saudita e o da carteira de vacina — ele não é réu. O Dark Horse é hoje a única investigação criminal em aberto contra o candidato.

O acordo com Vorcaro

O caso nasceu de um pedido de dinheiro feito pelo próprio Flávio, segundo as mensagens obtidas pelo Intercept, site investigativo que revelou as negociações em maio. O alvo era o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso desde novembro de 2025.

Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — para custear Dark Horse, um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, entraram entre fevereiro e maio de 2025. O total rastreado chegou depois a US$ 12,3 milhões.

O dinheiro, segundo o Intercept, foi para o fundo Havengate, no Texas. A empresa era dormente: havia sido registrada em 2020 para um projeto de casas que nunca recebeu licença. O primeiro repasse do lado de Vorcaro foi de US$ 2 milhões, em 14 de fevereiro de 2025. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

As mensagens mostram Flávio cobrando Vorcaro por pagamentos atrasados em 8 de setembro de 2025. Na véspera da prisão do banqueiro, em 16 de novembro, o senador enviou uma mensagem de apoio: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.

Sobre o pedido, o senador mudou de posição no mesmo dia, 13 de maio. De manhã, chamou a reportagem de mentira. À noite, confirmou ter buscado um “patrocínio privado” para o filme e negou ter oferecido algo em troca ou usado dinheiro público, registrou o Poder360.

Delação e cooperação com os EUA

A investigação avançou nos últimos dois meses. Em setembro, Mendonça aprovou a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro — doleiro, ou seja, quem faz remessas de valores ao exterior fora do circuito bancário oficial. Colaboração premiada é o acordo em que um investigado troca depoimento por benefícios legais.

Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que buscasse ajuda dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro, informou a CNN Brasil. O caminho dos recursos passa por um fundo no Texas. A cooperação entre justiças serve para obter lá os dados que a polícia não alcança aqui. O Aos Fatos contabilizou ao menos 43 declarações falsas do senador sobre Vorcaro desde que o caso veio a público.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em entrevista à CNN no dia 16 de outubro, o senador afirmou que o dinheiro de Vorcaro para o filme era lícito e privado. Disse que seu cargo de senador não dava qualquer contrapartida ao banqueiro e atribuiu a diferença apontada pela PF a um contrato que não foi cumprido. Desde maio, sustenta que buscou apenas patrocínio privado e nega ter oferecido algo em troca.

Os 90 dias pedidos pela PF levam o inquérito para além do segundo turno e da posse. Se Flávio vencer, a apuração sobre o próprio presidente eleito seguirá em curso, dentro da polícia do governo dele. A pergunta aberta é a que a PF classificou de severa: mais de US$ 12 milhões saíram, e US$ 2,8 milhões constam de volta. Faltam seis dias para a eleição.

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