STF investiga Flávio por lavagem, corrupção e evasão de divisas
A PF aponta divergência 'severa': mais de US$ 12 milhões saíram do país e só US$ 2,8 milhões constam como retorno; foram pedidos 90 dias a mais.

A Polícia Federal (PF) classifica como “severa” a diferença entre o dinheiro que saiu do Brasil e o que consta de volta no caso Dark Horse. Segundo a emissora alemã Deutsche Welle (DW), em reportagem publicada pelo jornal O Povo, mais de US$ 12 milhões foram enviados ao exterior. Apenas US$ 2,8 milhões aparecem registrados como retorno.
O inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) investiga Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e candidato à Presidência. Na sexta-feira (16), a PF pediu mais 90 dias para encerrar os trabalhos. O pedido foi relatado nesta segunda-feira (19) pelo site ConJur. Ainda não há decisão do ministro André Mendonça, que conduz o caso.
O inquérito apura suspeitas de três crimes: lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas — a saída não declarada de recursos para o exterior. Ele foi aberto por Mendonça em 22 de julho, a pedido da PF e com concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR), o órgão que comanda a acusação pública no país.
Segundo a Agência Brasil, o ministro incluiu Flávio entre os investigados. O irmão do senador, Eduardo Bolsonaro, também é alvo.
Inquérito é a fase da apuração, anterior a qualquer denúncia. No caso, Flávio é investigado, não réu. Nos processos do pai — o do golpe, o das joias da Arábia Saudita e o da carteira de vacina — ele não é réu. O Dark Horse é hoje a única investigação criminal em aberto contra o candidato.
O acordo com Vorcaro
O caso nasceu de um pedido de dinheiro feito pelo próprio Flávio, segundo as mensagens obtidas pelo Intercept, site investigativo que revelou as negociações em maio. O alvo era o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso desde novembro de 2025.
Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — para custear Dark Horse, um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, entraram entre fevereiro e maio de 2025. O total rastreado chegou depois a US$ 12,3 milhões.
O dinheiro, segundo o Intercept, foi para o fundo Havengate, no Texas. A empresa era dormente: havia sido registrada em 2020 para um projeto de casas que nunca recebeu licença. O primeiro repasse do lado de Vorcaro foi de US$ 2 milhões, em 14 de fevereiro de 2025. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
As mensagens mostram Flávio cobrando Vorcaro por pagamentos atrasados em 8 de setembro de 2025. Na véspera da prisão do banqueiro, em 16 de novembro, o senador enviou uma mensagem de apoio: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.
Sobre o pedido, o senador mudou de posição no mesmo dia, 13 de maio. De manhã, chamou a reportagem de mentira. À noite, confirmou ter buscado um “patrocínio privado” para o filme e negou ter oferecido algo em troca ou usado dinheiro público, registrou o Poder360.
Delação e cooperação com os EUA
A investigação avançou nos últimos dois meses. Em setembro, Mendonça aprovou a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro — doleiro, ou seja, quem faz remessas de valores ao exterior fora do circuito bancário oficial. Colaboração premiada é o acordo em que um investigado troca depoimento por benefícios legais.
Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que buscasse ajuda dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro, informou a CNN Brasil. O caminho dos recursos passa por um fundo no Texas. A cooperação entre justiças serve para obter lá os dados que a polícia não alcança aqui. O Aos Fatos contabilizou ao menos 43 declarações falsas do senador sobre Vorcaro desde que o caso veio a público.
O que diz Flávio Bolsonaro: Em entrevista à CNN no dia 16 de outubro, o senador afirmou que o dinheiro de Vorcaro para o filme era lícito e privado. Disse que seu cargo de senador não dava qualquer contrapartida ao banqueiro e atribuiu a diferença apontada pela PF a um contrato que não foi cumprido. Desde maio, sustenta que buscou apenas patrocínio privado e nega ter oferecido algo em troca.
Os 90 dias pedidos pela PF levam o inquérito para além do segundo turno e da posse. Se Flávio vencer, a apuração sobre o próprio presidente eleito seguirá em curso, dentro da polícia do governo dele. A pergunta aberta é a que a PF classificou de severa: mais de US$ 12 milhões saíram, e US$ 2,8 milhões constam de volta. Faltam seis dias para a eleição.
Fontes
- PF aponta ‘divergência severa’ entre recursos enviados ao exterior no caso Dark Horse — O Povo/DW
- PF pede prorrogação de inquérito sobre financiamento do Dark Horse — ConJur
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- PF aciona MJ por cooperação com EUA para rastrear dinheiro de Dark Horse — CNN Brasil
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360
- Áudio: Flávio negociou com Vorcaro milhões para filme sobre Jair — Intercept
- Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre envolvimento com Vorcaro — Aos Fatos



