Soberania e Defesa

Itamaraty acusa Milei de tentar interferir na eleição brasileira

Em nota na terça-feira (20), o Itamaraty chama de ingerência externa as postagens de Milei contra Lula e defende a segurança das urnas.

Fachada do Palácio do Itamaraty, em Brasília, com colunas de concreto, janelas de vidro e um espelho d'água com plantas no primeiro plano.
Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília.Foto: Lou Fernando / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na terça-feira (20), o Itamaraty divulgou uma nota contra o presidente da Argentina, Javier Milei. Para o ministério, as publicações dele são uma tentativa de interferir na eleição brasileira. O segundo turno está marcado para domingo (25).

Milei publicou no X uma postagem sobre o presidente Lula. Ele chamou Lula de “esquerdista ladrão” e escreveu que esperava que o “último truque sujo” da campanha não incluísse “roubar a eleição”, segundo o NDmais. Segundo o Itamaraty, desta vez os ataques miraram o Poder Judiciário e o sistema de votação.

Um caso que vem de julho

A nota não é o primeiro episódio. No fim de julho, na convenção do PL (Partido Liberal) em São Paulo, Milei chamou Lula de “ladrão” e “presidiário”. Ele também se referiu ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, como “lixo careca”, segundo a Swissinfo.

Na ocasião, o governo brasileiro chamou para consultas seu embaixador em Buenos Aires, Júlio Bitelli. O Itamaraty também convocou o embaixador argentino, Daniel Raimondi, para pedir explicações, segundo a CNN Brasil.

Em 4 de agosto, a agência Reuters ouviu uma fonte do governo brasileiro. Segundo a agência, o Brasil passou a tratar as relações com a Argentina no nível de encarregado de negócios, abaixo do de embaixador. Segundo a agência, Júlio Bitelli não voltaria a Buenos Aires. A decisão veio depois de Milei chamar Lula de ladrão e corrupto em entrevista ao canal argentino LN+.

O que diz a nota

A nota afirma que as ofensas são uma “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”. Ingerência é a interferência de um governo estrangeiro em assuntos internos de outro país. A reportagem da Imirante, com informações da Agência Brasil, cita o texto.

O ministério também defende as urnas. Segundo a nota, “o sistema brasileiro de voto eletrônico é comprovadamente seguro, nunca registrou irregularidades”. Os observadores eleitorais, diz o texto, “já ratificaram essa realidade no primeiro turno das eleições”.

Por fim, a nota diz que “a escolha do próximo presidente cabe exclusivamente aos eleitores do país”. Segundo o texto, a votação será livre, sem interferência externa, no domingo.

O que diz o Itamaraty: em nota divulgada na terça-feira (20), o ministério afirma que as ofensas são uma “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro” (CNN Brasil e NDmais).

O que está em jogo no comércio

A Argentina é um parceiro comercial relevante para o Brasil. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras para a Argentina somaram US$ 18,1 bilhões em 2025, alta de 31,4% sobre 2024. A Argentina respondeu por 5,2% das exportações do país, a maior fatia desde 2018, segundo a Gazeta do Povo, que cita os mesmos dados.

Os números são de 2025, antes das crises diplomáticas de julho e agosto deste ano. Não encontramos dados de 2026 nesta apuração. A Gazeta do Povo afirma que, apesar do desgaste político, os dois países mantêm uma das relações econômicas mais relevantes da América do Sul.

O que ainda está em aberto

Nas reportagens consultadas, Milei não apresenta dados que sustentem a suspeita de fraude. Também não localizamos resposta pública dele à nota do Itamaraty. O texto integral da nota não foi publicado nas fontes que consultamos, e as citações vêm das reportagens.

O que vem a seguir depende da eleição. O segundo turno acontece no domingo (25). Até lá, a relação entre Brasília e Buenos Aires segue tensa, com os dois governos trocando acusações públicas.

Como fizemos: Usamos três reportagens sobre a nota do Itamaraty e as postagens de Milei, publicadas em 20 e 21 de outubro de 2026, e uma reportagem sobre a crise de julho, acessadas em 21/10/2026. Conferimos as citações da nota em duas reportagens independentes. Não localizamos o texto integral no site do Itamaraty. O rebaixamento de agosto vem da Reuters. Os dados de comércio de 2025 são os que a Gazeta do Povo atribui ao MDIC; não consultamos o ComexStat diretamente. Não fizemos cálculos com dados.

Fontes