Terras raras: Flávio oferece o Brasil aos EUA como alternativa à China
Da CPAC à Casa Branca, Flávio prometeu aos EUA parcerias de longo prazo em terras raras, com investimento protegido, em plena negociação de tarifas.

Em 28 de março, num palco da CPAC, a conferência conservadora americana, no Texas, Flávio Bolsonaro fez uma oferta. Disse que o Brasil é a saída dos Estados Unidos para a dependência da China em terras raras. No mesmo discurso, pediu ao “mundo livre” que vigiasse a eleição brasileira.
Terras raras são minerais estratégicos para a indústria de alta tecnologia, como a de ímãs e motores elétricos. O Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas, segundo o site especializado MINING.COM. É a segunda maior reserva do mundo, atrás apenas da China.
Da CPAC à Casa Branca
A oferta não ficou no Texas. Em 26 de maio, Flávio foi recebido por Donald Trump na Casa Branca. No dia seguinte, encontrou o secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo a CNN Brasil, prometeu aos americanos parcerias de longo prazo em terras raras, com investimento protegido.
Na mesma viagem, pediu que os EUA classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas. Em junho, disse que consideraria tirar o Brasil do Brics, o bloco de países emergentes que inclui China, Rússia e Índia. Seu plano de governo cita EUA, Argentina e Israel como parceiros prioritários e omite Brics e Mercosul.
Em setembro, o Estado de Minas revelou um documento de 22 páginas chamado “Prosperity Partnership”. O material levava a marca “Flávio Bolsonaro, 2026 Campaign”. Propunha uma aliança mineral com os EUA, mudanças nas regras de mineração e investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões.
O autor, André Marinho (Novo), diz que o texto foi um exercício pessoal e nunca foi enviado. Nenhuma resposta de Flávio sobre o documento foi registrada pela imprensa.
Um negócio em andamento
A oferta chega num momento sensível. Em abril, a empresa USA Rare Earth fechou a compra da Serra Verde, em Goiás, por US$ 2,8 bilhões, segundo a agência Reuters. É a única mina comercial de terras raras do país. O negócio tem financiamento de US$ 565 milhões do governo americano, e toda a produção vai para um comprador apoiado pelos EUA.
Em 9 de outubro, a Reuters informou que o acesso americano aos minerais brasileiros é um ponto central num grupo de trabalho sobre as tarifas. Em 15 de julho, entrou em vigor uma tarifa americana de 25% sobre produtos brasileiros. Dias antes, Flávio havia pedido ao escritório de comércio dos EUA a suspensão da medida e culpado Lula.
Segundo resumo do jornal Brasil de Fato, de linha de esquerda, o plano de Flávio para o setor prevê mais processamento no Brasil e transferência de tecnologia. Também defende o Estado como regulador, não como dono, além de capital estrangeiro e licenciamento mais simples.
Há limites claros no que o registro mostra. Não há documento que comprove promessa de “vender” ou “entregar” as terras raras. Também não há compromisso formal assinado com os EUA. O que existe é uma oferta pública, repetida em palcos americanos, de transformar o subsolo brasileiro em peça da disputa entre Washington e Pequim.
O governo seguiu outro caminho. Em 16 de setembro, Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei cria créditos tributários de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034 e um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões. Também cria um conselho que pode rever compras de empresas do setor por estrangeiros.
No debate da Band, em 18 de outubro, Lula perguntou se Flávio entregaria as terras raras aos EUA. Os veículos divergem sobre se ele negou diretamente.
O que diz Flávio Bolsonaro: No debate, ele chamou a acusação de fake news e disse que foi aos Estados Unidos para defender empresas brasileiras. Seu plano prevê ampliar o processamento dos minerais no Brasil, com transferência de tecnologia.
Parceria comercial não é crime, e o Brasil precisa de investimento para explorar o que tem. O problema é a ordem das coisas. Antes de eleito, Flávio já ofereceu o país como alternativa à China a um governo estrangeiro em plena guerra tarifária contra o Brasil. No dia 25, o eleitor decide quem vai sentar à mesa para negociar esse patrimônio.
Fontes
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Assista ao discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA e leia a íntegra — Poder360
- Terras raras: plano com marca de Flávio Bolsonaro prevê parceria com EUA — Estado de Minas
- USA Rare Earth buys Brazil’s Serra Verde for $2.8 billion — Reuters via Investing.com
- Brazil election to reshape trade with US, with tariffs and minerals at stake — Reuters via Internazionale
- Lula questiona Flávio sobre terras raras e desafia senador — Correio Braziliense
- Lula sanciona lei que cria Política Nacional de Minerais Críticos — JB
- Trump courts Brazil in rare earth supply push — MINING.COM



