Análise assinada

Em agosto, Flávio prometeu aceitar o resultado. Agora deve cumprir.

Em 2 de agosto, Flávio disse que aceitaria as urnas por confiar no TSE. Na noite de domingo, disse que é impossível reconhecer o resultado.

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Senador Flávio Bolsonaro, de terno azul, cercado de jornalistas e apoiadores diante de um bolo com a frase 'Coragem para liderar, força para vencer'
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista, cercado de jornalistas e apoiadores.Foto: Ton Molina / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 2 de agosto de 2026, Flávio Bolsonaro disse ao programa Canal Livre, da Band, que aceitaria o resultado das urnas. “Eu vou aceitar”, afirmou. Na noite de domingo (25), depois da apuração do segundo turno, ele disse outra coisa. Este texto defende que a promessa feita antes da votação continua valendo depois dela.

O senador não prometeu aceitar em tese. Ele deu a razão: “tenho certeza que o TSE, diferente de 2022, vai ser um TSE imparcial”. A promessa tinha, portanto, uma condição, que era a imparcialidade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, segundo dados do TSE com 100% das seções apuradas. Flávio teve 48,21%, uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos. Segundo a CNN Brasil, ele afirmou que “é impossível reconhecer” o resultado e que “vamos pedir anulação dessas eleições”. Ele atribuiu a situação a uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que, segundo ele, prorrogou a votação por duas horas.

A condição era o próprio tribunal

O TSE que Flávio criticava em agosto já não é o de 2022. Kassio Nunes Marques preside a corte desde 12 de maio de 2026, e André Mendonça é o vice. Os dois foram indicados ao STF por Jair Bolsonaro: Nunes Marques em 2020 e Mendonça em julho de 2021, segundo o Poder360.

Se a promessa dependia de um tribunal imparcial, a premissa ficou mais sólida, não mais frágil. Os dois ministros no topo da corte foram escolhidos pelo pai do candidato. A queixa de domingo, por sua vez, aponta para o Supremo. Segundo a CNN Brasil, Flávio disse que Zanin “não faz parte do Tribunal Superior Eleitoral”. Se a condição era a imparcialidade do TSE, ele deve explicar o que mudou desde agosto.

O argumento de Flávio, e por que não basta

Flávio tem um argumento que merece resposta. Em 2022, o TSE, então presidido por Alexandre de Moraes, aplicou ao PL uma multa de cerca de R$ 22 milhões. Na entrevista de agosto, o senador reclamou dessa punição, segundo a Folha de S.Paulo.

A multa foi mantida pelo TSE em dezembro de 2022. O valor era de R$ 22.991.544,60, aplicado por litigância de má-fé, ou seja, uso abusivo do processo. Criticar uma decisão é legítimo. Mas uma decisão mantida em recurso não prova que a corte decide contra a lei.

Flávio também cobra que o TSE imponha “mais camadas de segurança, transparência”, segundo a mesma reportagem da Folha. Pedir mais controle sobre a urna é direito de qualquer partido. Mas a promessa de agosto não dizia que o resultado dependeria de um sistema perfeito. Dizia que ele aceitaria.

O caminho legal existe e cabe a qualquer candidato. Contestar na Justiça, com prova, é diferente de dizer que não reconhece o resultado antes de qualquer decisão. A primeira é a regra do jogo. A segunda é o que ele prometeu não fazer.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em 2 de agosto, no Canal Livre, disse: “Eu vou aceitar. Eu vou concorrer com essas regras”. Na noite de 25 de outubro, segundo a CNN Brasil, afirmou que “é impossível reconhecer” o resultado e que “vamos pedir anulação dessas eleições”.

O que fica em aberto

Ainda não se sabe o que a campanha vai levar à Justiça, nem quais provas vai apresentar. Isso será decidido nos autos, e não em entrevistas. Mas a promessa já está registrada. Foi feita com data e em TV aberta, por um candidato que disputava a eleição sob essas mesmas regras.

Uma democracia não funciona quando o perdedor decide, depois da urna, se aceita o resultado. A palavra dada antes da votação é o critério justo para cobrar quem a deu. Os eleitores que votaram nele também votaram sob essas regras, e merecem saber se a palavra vale. Flávio Bolsonaro deve cumpri-la.

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