Economia

Vendas de alimentos sobem 6,5% após proibição das bets

Abras registra alta em duas semanas de outubro e associa o consumo ao veto às apostas, mas os dados não comprovam causa e efeito.

Funcionário de supermercado embala frios vendidos a cliente no Recife
Setor de frios de um supermercado no Recife, fotografado em 24 de dezembro de 2016.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

As vendas de alimentos nos supermercados aumentaram 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro, ante o mesmo período de 2025. Na semana seguinte, a alta foi de 6,3%. Os dados foram divulgados nesta quarta pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

O levantamento cobre o período posterior à proibição das apostas de quota fixa, conhecidas como bets. A entidade associa os dois movimentos, mas reconhece que a relação de causa e efeito não está comprovada. Renda, preços e benefícios sociais também influenciam o consumo.

A alta nacional recuou 0,2 ponto percentual entre as duas semanas. Mesmo assim, manteve-se acima de 6% nas duas comparações anuais.

Todas as regiões registraram alta

O crescimento apareceu em todas as regiões pesquisadas. Na primeira semana, o Sul e o conjunto formado por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio tiveram as maiores taxas. Ambos avançaram 10,6%.

Na segunda semana, o Sul liderou com alta de 9%. O mesmo conjunto do Sudeste cresceu 7,1%, e o Grande Rio avançou 6%. Os demais mercados tiveram variações menores, mas positivas.

Sul lidera as duas semanas, com desaceleração Variação das vendas ante as mesmas semanas de 2025

Mercado 5 a 11 de outubro 12 a 18 de outubro
Brasil 6,5% 6,3%
Sul 10,6% 9,0%
MG, ES e interior do RJ 10,6% 7,1%
Nordeste 6,5% Não detalhado
Grande Rio Não detalhado 6,0%

Fonte: Abras, via Congresso em Foco. Campos sem taxa não foram detalhados na divulgação.

O Sul perdeu 1,6 ponto percentual entre as semanas. O conjunto de Minas, Espírito Santo e interior fluminense recuou 3,5 pontos. As taxas ainda foram altas, mas a desaceleração desaconselha tratar o primeiro resultado como tendência permanente.

O elo com as bets ainda é hipótese

A Medida Provisória (MP) 1.394/2026 foi publicada em 25 de setembro. Ela proibiu apostas esportivas e jogos on-line de quota fixa. Nas bets, o prêmio é definido por um multiplicador no momento da aposta.

As plataformas deveriam sair do ar em 6 de outubro, segundo a Abras. A MP está em vigor, mas precisa ser aprovada pelo Congresso para manter seus efeitos. O texto enfrenta resistência de parlamentares e de setores patrocinados por empresas de apostas.

A Abras também citou uma queda inicial de cerca de 10% nas transações por Pix, seguida de redução próxima de 7%. A entidade atribuiu os números ao Banco Central. A divulgação não apresenta uma série que ligue essas transações às compras de alimentos.

O que diz a Abras: O presidente João Galassi afirmou que houve aumento de consumo no atacarejo, no supermercado e nas lojas de vizinhança. A entidade associa o desempenho à restrição das bets, mas não apresenta comprovação de que houve transferência direta do gasto.

O que seria necessário para provar

Uma prova causal exigiria acompanhar os mesmos consumidores antes e depois do veto. Também seria preciso controlar renda, inflação e calendário de pagamentos. A coincidência entre as datas, sozinha, não oferece essas respostas.

O levantamento é relevante porque mostra ganho disseminado de vendas. A leitura correta, porém, separa o fato medido da explicação sugerida. As próximas semanas indicarão se a alta continua e se há dados que conectem apostas e consumo.

Como fizemos: Consultamos os dados da Abras reproduzidos pelo Congresso em Foco em 28/10/2026 e a apresentação da MP 1.394/2026 no Congresso. Comparamos as taxas das duas semanas sem calcular média regional. Os dados divulgados são agregados e não identificam quanto cada família gastava em apostas ou alimentos.

Fontes