Dólar a R$ 5,40 favorece venda de soja, mas encarece adubo importado
Com base em dados do Cepea e do MDIC, o dólar a R$ 5,40 favorece a venda de soja em reais, mas encarece fertilizantes importados.

Na segunda-feira (26), o dólar comercial subiu 8,25% e fechou a R$ 5,40, segundo o BPMoney. O dado é de uma publicação das 17h22. No mesmo dia, o Ibovespa, índice da Bolsa brasileira (B3), caiu 13,88%, para 176.608 pontos. Para o campo, a pergunta é outra: quem recebe em dólar e quem paga em dólar?
A soja e o milho têm preço formado em dólar nas bolsas internacionais. A consultoria MacroSector explica, em relatório de 15 de setembro, que a valorização do real comprime a conversão desses preços em reais. Com o dólar mais caro, a mesma venda rende mais reais.
Quem ganha: a venda em reais
O indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, marcava R$ 152,41 por saca de soja de 60 kg, em Paranaguá, em 23 de outubro. Na mesma data, a saca equivalia a US$ 30,53, e a queda acumulada no mês era de 5,66%. Nossa conta: com o mesmo preço em dólar e câmbio de R$ 5,40, a saca valeria cerca de R$ 164,86, alta de 8,2%.
O cálculo não considera frete, custos portuários nem prazos de venda. Em setembro, a MacroSector previa dólar médio de R$ 5,17 em 2026 e de R$ 5,33 em 2027. O câmbio de segunda-feira ficou acima das duas médias.
Quem perde: o adubo importado
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) informa que o país importa 93% dos fertilizantes que usa. A análise é de 21 de maio de 2026. Segundo o Campo Futuro, projeto do Sistema CNA/Senar, a ureia ao produtor subiu 40% no conflito do Oriente Médio. No mesmo período, a soja subiu 0,9% e o milho, 0,1%.
O preço médio de importação de fertilizantes chegou a US$ 403,20 por tonelada em agosto, 12,8% acima de agosto de 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) citados pela Agrolink. Nossa conta: com o câmbio implícito de 23 de outubro, de cerca de R$ 4,99, a tonelada custaria R$ 2.012. A R$ 5,40, passaria a R$ 2.177, cerca de R$ 165 a mais.
Os dois preços sobem na mesma proporção, porque ambos são cotados em dólar. Por isso, o câmbio sozinho não muda a relação entre a saca e o adubo. O que pesa é a variação do preço em dólar de cada um, e a CNA mostra a ureia subindo mais que a soja.
Crédito: a conta dos juros segue aberta
O Plano Safra 2026/27 destina R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O anúncio foi em 30 de junho. O custeio empresarial, usado para pagar a lavoura, tem juros de até 12,5% ao ano. O Pronamp, para médios produtores, cobra até 9% ao ano.
No dia 26, os juros futuros, que mostram a expectativa do mercado para a taxa de juros, subiram mais de 200 pontos-base em prazos médios e longos, segundo o Money Times. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual. Não encontramos anúncio do governo que altere as taxas do Plano Safra por causa do câmbio ou dos juros.
O ganho do exportador não chega sozinho à cidade do interior. Ele depende de margem, de crédito e de compra de insumos na região. Não há dado público por município que meça esse efeito.
O que diz a CNA: Em análise de 21 de maio de 2026, a entidade afirma que fertilizantes mais caros pressionam o custo da próxima safra. Não encontramos manifestação pública da CNA sobre a cotação de 26 de outubro até a publicação deste texto.
O que isso significa
O dólar a R$ 5,40 melhora a conta de quem vende em dólar e piora a de quem compra insumo importado. O saldo líquido para o produtor ainda não aparece em dados públicos. Também não há leitura documentada da cotação do Cepea do dia 26, nem posição de entidades do agro sobre a alta.
Ativos podem perder valor, e quedas fortes podem se aprofundar. Nada aqui é recomendação de investimento.
Como fizemos: Usamos o indicador do Cepea para soja em Paranaguá de 23 de outubro de 2026, o preço médio de importação de fertilizantes de agosto de 2026 (MDIC, via Agrolink), o Plano Safra publicado pelo Mapa em 30 de junho de 2026 (via Safras), a projeção da MacroSector de 15 de setembro de 2026 e o fechamento de 26 de outubro do BPMoney e do Money Times, acessados em 26 de outubro de 2026. O câmbio implícito de R$ 4,99 é a divisão de R$ 152,41 por US$ 30,53. As contas de R$ 164,86, R$ 2.012 e R$ 2.177 não incluem frete, impostos nem prazos, e os preços de insumo são de agosto, não do dia 26.
Fontes
- Ibovespa desaba 13,88% e dólar salta para R$ 5,40 após resultado das eleições — BPMoney
- Ibovespa despenca 13% e fecha no menor nível em dois meses — Money Times
- Indicador da Soja CEPEA/ESALQ — Paranaguá (acesso em 26 de outubro de 2026)
- CNA mostra que fertilizantes mais caros e conflitos no Oriente Médio pressionam custo da próxima safra — CNA
- Fertilizantes mais caros elevam custos da safra — Agrolink
- Governo destina R$ 525,1 bilhões para setor empresarial no Plano Safra 2026/27, diz Mapa — Safras
- MacroSector vê receita agrícola em queda, soja firme e relação de troca piorando para o produtor em 2026 — AgFeed



