Lula é o adversário. Flávio é o problema
Opor-se a Lula é legítimo. O problema é o preço: quatro anos explicando Vorcaro, com a direita vestida por um candidato investigado no STF.
Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

Na véspera da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) lhe enviou uma mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, em 16 de novembro de 2025. O Intercept revelou as mensagens em maio, junto com o pedido de US$ 24 milhões para um filme sobre o pai do senador.
É por isso que escrevo esta coluna. Combater Lula é o ofício natural de quem é de direita. Mas adversário e problema são coisas diferentes. O adversário é Lula: pode ser derrotado. O problema é Flávio: se vencer, leva a nossa bandeira junto.
Na minha avaliação, Flávio é uma falsa direita. Ele chamou de “irmão” um banqueiro que depois foi preso e cobrou dele US$ 24 milhões. Hoje, é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, segundo a Agência Brasil. Na rachadinha, foi denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 2020 e nunca julgado. As provas foram anuladas por questões processuais, e anulado não é inocentado.
Os fatos contra Lula — e como respondê-los
O leitor de direita tem razões contra Lula — e várias são verdadeiras.
“Lula é corrupto, a Lava Jato provou.” As condenações foram anuladas em 2021 porque o STF considerou o foro de Curitiba incompetente — não por absolvição no mérito, segundo a CNN Brasil. Vale o mesmo padrão para Flávio: denunciado, nunca julgado, provas anuladas. A diferença é que Flávio é investigado agora, no STF, pelo caso Vorcaro. Ninguém pede que você absolva Lula. Pede-se que não premie Flávio.
“E o Lulinha e a fraude do INSS?” A CPMI rejeitou, com votos do governo, o relatório que pedia o indiciamento dele. Há depoimentos ligando-o ao “Careca do INSS”, mas ele não é investigado formalmente, segundo o Poder360. As fraudes, porém, começaram em 2019, no governo Bolsonaro. E o entorno de Flávio também aparece: a PF o aponta como “usuário master” da conta de um advogado investigado no caso, o que ele nega.
“Lula quebrou as contas.” A dívida bruta subiu de 71,7% para 82,9% do PIB, segundo o Banco Central, e a meta fiscal de 2026 está em dúvida. É verdade — e por isso a direita precisa de um candidato fiscal de verdade. Flávio promete comprar as dívidas das famílias junto aos bancos, aumentar o salário mínimo acima da inflação e ampliar o Bolsa Família, sem dizer de onde vem o dinheiro. Para Monica de Bolle, a conta “não fecha de jeito algum”. Sergio Vale, do MB Associados, chama o corte prometido de irreal e fala em “estelionato eleitoral”.
“O mercado prefere Flávio.” A Bolsa bateu recorde e o dólar caiu abaixo de R$ 5 quando ele liderou o primeiro turno. Mas o mesmo mercado derrubou a Bolsa 1,8% no dia do áudio com Vorcaro, e economistas temem a “pauta da vingança”. Aposta de curto prazo não é projeto de país.
“Votar em Lula é votar no PT.” É. Não existe resposta elegante, existe resposta honesta: é um voto tático, que dura um mandato, e serve a um objetivo — não deixar que a direita vire sinônimo de Vorcaro.
O problema, em números
O caso Dark Horse é o único inquérito criminal aberto contra Flávio. Ele é investigado, não réu — e essa distinção importa. O que a apuração registra, segundo o Intercept: Vorcaro comprometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme sobre Jair Bolsonaro. Pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O destino era a Havengate, um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
Em 13 de maio, Flávio chamou a reportagem de mentira de manhã e, à noite, confirmou que buscou “patrocínio privado” para o filme, segundo o Poder360. Ele negou contrapartidas e uso de dinheiro público. Em 22 de julho, o ministro André Mendonça o incluiu como investigado, a pedido da Polícia Federal (PF), com anuência da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A Polícia Federal classifica como “severa” a divergência contábil. Mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, e apenas US$ 2,8 milhões constam como retorno, segundo a Deutsche Welle. A Lupa considerou falsa a alegação de que os contratos já tinham sido mostrados. E o Aos Fatos contou ao menos 43 afirmações falsas do senador sobre Vorcaro.
O que diz Flávio Bolsonaro: À CNN Brasil, no dia 16, ele disse que o dinheiro de Vorcaro era “lícito e privado”. Sua cadeira no Senado, afirmou, não dava vantagem ao banqueiro. Ele nega ter oferecido contrapartidas e atribui a divergência a um contrato não cumprido.
Ninguém precisa gostar de Lula para ver o tamanho do problema. No domingo (25), a direita escolhe: quatro anos com um adversário velho e vigiado, ou quatro anos explicando por que seu candidato chamava de “irmão” um banqueiro preso. Adversário se combate. Problema se evita.
Fontes
- Áudio: Flávio negociou com Vorcaro milhões para filme sobre o pai — Intercept
- Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado — Poder360
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- ‘Dark Horse’: PF aponta divergência ‘severa’ entre recursos enviados ao exterior — O Povo
- Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado — CNN Brasil
- Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre envolvimento com Vorcaro — Aos Fatos
- Checagem da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional — Lupa
- Maioria do STF decide por anular condenações de Lula na Lava Jato — CNN Brasil



