Opinião

Lula é o adversário. Flávio é o problema

Opor-se a Lula é legítimo. O problema é o preço: quatro anos explicando Vorcaro, com a direita vestida por um candidato investigado no STF.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a faixa presidencial, discursa no parlatório do Palácio do Planalto, cercado por autoridades e pelo público.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa no Palácio do Planalto após receber a faixa presidencial, em 1º de janeiro de 2023.Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na véspera da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) lhe enviou uma mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, em 16 de novembro de 2025. O Intercept revelou as mensagens em maio, junto com o pedido de US$ 24 milhões para um filme sobre o pai do senador.

É por isso que escrevo esta coluna. Combater Lula é o ofício natural de quem é de direita. Mas adversário e problema são coisas diferentes. O adversário é Lula: pode ser derrotado. O problema é Flávio: se vencer, leva a nossa bandeira junto.

Na minha avaliação, Flávio é uma falsa direita. Ele chamou de “irmão” um banqueiro que depois foi preso e cobrou dele US$ 24 milhões. Hoje, é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, segundo a Agência Brasil. Na rachadinha, foi denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 2020 e nunca julgado. As provas foram anuladas por questões processuais, e anulado não é inocentado.

Os fatos contra Lula — e como respondê-los

O leitor de direita tem razões contra Lula — e várias são verdadeiras.

“Lula é corrupto, a Lava Jato provou.” As condenações foram anuladas em 2021 porque o STF considerou o foro de Curitiba incompetente — não por absolvição no mérito, segundo a CNN Brasil. Vale o mesmo padrão para Flávio: denunciado, nunca julgado, provas anuladas. A diferença é que Flávio é investigado agora, no STF, pelo caso Vorcaro. Ninguém pede que você absolva Lula. Pede-se que não premie Flávio.

“E o Lulinha e a fraude do INSS?” A CPMI rejeitou, com votos do governo, o relatório que pedia o indiciamento dele. Há depoimentos ligando-o ao “Careca do INSS”, mas ele não é investigado formalmente, segundo o Poder360. As fraudes, porém, começaram em 2019, no governo Bolsonaro. E o entorno de Flávio também aparece: a PF o aponta como “usuário master” da conta de um advogado investigado no caso, o que ele nega.

“Lula quebrou as contas.” A dívida bruta subiu de 71,7% para 82,9% do PIB, segundo o Banco Central, e a meta fiscal de 2026 está em dúvida. É verdade — e por isso a direita precisa de um candidato fiscal de verdade. Flávio promete comprar as dívidas das famílias junto aos bancos, aumentar o salário mínimo acima da inflação e ampliar o Bolsa Família, sem dizer de onde vem o dinheiro. Para Monica de Bolle, a conta “não fecha de jeito algum”. Sergio Vale, do MB Associados, chama o corte prometido de irreal e fala em “estelionato eleitoral”.

“O mercado prefere Flávio.” A Bolsa bateu recorde e o dólar caiu abaixo de R$ 5 quando ele liderou o primeiro turno. Mas o mesmo mercado derrubou a Bolsa 1,8% no dia do áudio com Vorcaro, e economistas temem a “pauta da vingança”. Aposta de curto prazo não é projeto de país.

“Votar em Lula é votar no PT.” É. Não existe resposta elegante, existe resposta honesta: é um voto tático, que dura um mandato, e serve a um objetivo — não deixar que a direita vire sinônimo de Vorcaro.

O problema, em números

O caso Dark Horse é o único inquérito criminal aberto contra Flávio. Ele é investigado, não réu — e essa distinção importa. O que a apuração registra, segundo o Intercept: Vorcaro comprometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme sobre Jair Bolsonaro. Pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O destino era a Havengate, um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Em 13 de maio, Flávio chamou a reportagem de mentira de manhã e, à noite, confirmou que buscou “patrocínio privado” para o filme, segundo o Poder360. Ele negou contrapartidas e uso de dinheiro público. Em 22 de julho, o ministro André Mendonça o incluiu como investigado, a pedido da Polícia Federal (PF), com anuência da Procuradoria-Geral da República (PGR).

A Polícia Federal classifica como “severa” a divergência contábil. Mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, e apenas US$ 2,8 milhões constam como retorno, segundo a Deutsche Welle. A Lupa considerou falsa a alegação de que os contratos já tinham sido mostrados. E o Aos Fatos contou ao menos 43 afirmações falsas do senador sobre Vorcaro.

O que diz Flávio Bolsonaro: À CNN Brasil, no dia 16, ele disse que o dinheiro de Vorcaro era “lícito e privado”. Sua cadeira no Senado, afirmou, não dava vantagem ao banqueiro. Ele nega ter oferecido contrapartidas e atribui a divergência a um contrato não cumprido.

Ninguém precisa gostar de Lula para ver o tamanho do problema. No domingo (25), a direita escolhe: quatro anos com um adversário velho e vigiado, ou quatro anos explicando por que seu candidato chamava de “irmão” um banqueiro preso. Adversário se combate. Problema se evita.

Fontes