Análise assinada

Depois da eleição, jornalistas precisam de defesa, não de inimigos

Opinião: após 14.182 ataques a jornalistas na campanha, e com o Brasil em 52º no ranking de liberdade de imprensa, a imprensa precisa de defesa.

Tribuna. Este texto expressa a posição de quem assina e não representa necessariamente a visão editorial do Auriverde.

Jornalistas em uma área de imprensa com câmeras de TV em tripés, alguns de pé e outros sentados no chão, em carpete azul diante de grandes janelas de vidro
Jornalistas brasileiros e estrangeiros credenciados para acompanhar o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff, em Brasília, em 25 de agosto de 2016.Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Este é um texto de opinião do Auriverde. Os fatos citados têm fonte na lista ao final.

Entre 16 de agosto e 4 de outubro de 2026, jornalistas e veículos sofreram 14.182 ataques nas redes sociais. O levantamento é da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), que monitorou X e Instagram. A média diária subiu de 188 para 327 nos oito dias antes do primeiro turno, uma alta de cerca de 74%.

No domingo (25), Lula foi reeleito presidente com 51,79% dos votos, segundo a apuração publicada pelo InfoMoney. A disputa acabou. O problema que ela expôs continua.

Este texto defende uma tese simples: a imprensa livre precisa de defesa depois da campanha, e não apenas durante ela.

A CDJor reúne dez entidades, entre elas a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Repórteres sem Fronteiras (RSF). O monitoramento teve apoio técnico do Labic/Ufes, da Universidade Federal do Espírito Santo. Não encontramos o balanço do segundo turno até a publicação deste texto.

Um problema que vem antes da campanha

O ataque não começou com a campanha, e não termina com ela. Em 2025, a Abraji registrou 204 alertas de violações à liberdade de imprensa no país. O número caiu 2,9% em relação a 2024, mas a entidade diz que isso não representa melhora estrutural.

Em 55,4% desses alertas, o caso teve origem ou repercussão no ambiente online. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) estimou cerca de 900 mil ataques virtuais a jornalistas em 2025, segundo reportagem do SBT News. O presidente-executivo da entidade citou campanhas para desacreditar o trabalho da imprensa e o uso de tecnologia para alterar falas de profissionais.

O recorte de gênero mostra quem sofre mais. Das agressões dirigidas a profissionais identificados, 64,8% atingiram mulheres, segundo a CDJor.

A Repórteres sem Fronteiras colocou o Brasil em 52º lugar entre 180 países no ranking de liberdade de imprensa de 2026. A organização afirma que o assédio e a violência online contra jornalistas, sobretudo contra mulheres, estão em alta. Ela lembra que pelo menos 30 jornalistas foram assassinados no país na última década.

Crítica não é ataque, e censura não é remédio

Quem defende a imprensa precisa levar a sério a preocupação oposta. Ninguém quer um país em que alguém decida, sem regra clara, o que pode ser publicado. A Constituição protege essa liberdade: a comunicação é livre “independentemente de censura ou licença”, diz o artigo 5º.

Em 2022, a Abert criticou decisões judiciais que interferem na programação de emissoras. A entidade falou em “cerceamento da livre circulação de conteúdos jornalísticos, ideias e opiniões”. A preocupação é legítima, e não deve ser tratada como desculpa.

Em 2026, o debate voltou com a portaria 463, um ato normativo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo o jornal O Povo, a atribuição de decidir sobre a aplicação da regra passou a caber à presidência do tribunal, hoje com o ministro Kassio Nunes Marques. Poder concentrado exige transparência. Quem remove conteúdo deve explicar o motivo, e quem publicou deve poder recorrer.

Crítica à reportagem também é legítima. A Constituição prevê direito de resposta e indenização para quem se sente ofendido, no artigo 5º, inciso V. Assédio, ameaça e campanhas para intimidar repórteres não são crítica. Muitos desses atos já são punidos pela lei penal.

O que diz a Abert: Em nota de 19 de outubro de 2022, a entidade afirmou considerar “preocupante a escalada de decisões judiciais que interferem na programação das emissoras”. A posição é de 2022, e a entidade não foi procurada para este texto.

Em 6 de julho, na audiência do Conselho de Comunicação Social do Congresso, Artur Romeu, diretor da RSF para a América Latina, disse: “No momento em que um jornalista é atacado, o alvo é a democracia e o direito da sociedade à informação.” A frase resume o ponto.

O Auriverde defende três coisas depois da eleição. Primeiro, que os ataques sejam apurados e os responsáveis, punidos. Segundo, que a crítica à imprensa siga pelos canais de resposta e de correção, e não pela intimidação. Terceiro, que a remoção de conteúdo seja pública e possa ser contestada.

Jornalistas não são inimigos da democracia. Eles registram o que o eleitor precisa saber antes e depois da urna.

O que segue em aberto é o balanço final da CDJor sobre o segundo turno e a forma como a portaria do TSE será aplicada. Os próximos meses vão mostrar se o país protege quem informa ou deixa a intimidação crescer sem resposta.

Como fizemos: Usamos o monitoramento da CDJor com o Labic/Ufes sobre o primeiro turno (16/8 a 4/10/2026, publicado em 9/10/2026), o relatório da Abraji sobre 2025 (publicado em 24/7/2026), o índice da RSF de 2026 e a reportagem do SBT News sobre o levantamento da Abert (8/4/2026), todos acessados em 27/10/2026. A alta de cerca de 74% é nosso cálculo, (327 − 188) / 188, igual ao publicado pela CDJor. Os percentuais de 55,4% e 2,9% são da Abraji. Não tivemos acesso ao relatório original da Abert, e os dados do segundo turno ainda não foram divulgados pela CDJor.

Fontes