Análise assinada

Bolsa não mede legitimidade: 124 milhões de votos decidiram a eleição

Lula foi reeleito com 64,3 milhões de votos. A bolsa mostra expectativas sobre as contas, e não pode servir de placar para a democracia.

Tribuna. Este texto expressa a posição de quem assina e não representa necessariamente a visão editorial do Auriverde.

Sala de pregão com painéis de cotações em vermelho e verde, e dois operadores sentados de costas diante de monitores, em formato paisagem
Painel de cotações e operadores no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na noite de domingo (25), Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro (PL) teve 59.826.041 votos, ou 48,21%. Os números são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo o ABC Mais.

Na mesma noite, Flávio disse: “Vamos pedir a anulação dessas eleições”. A frase foi registrada pela cobertura ao vivo do InfoMoney.

Este texto é opinião da redação do Auriverde. Defendemos que a bolsa de valores não é placar da democracia. Quem dá legitimidade a um presidente é o voto. O pregão mede outra coisa.

Essa tese não ignora o mercado. Os preços carregam informação real, e merecem atenção.

O que a bolsa mede de verdade

A B3 é a bolsa de valores do Brasil. Os preços que ela mostra reagem a expectativas sobre o futuro. Nesse sentido, o pregão funciona como termômetro de risco, e não como juiz de quem deve governar.

Nas semanas de campanha, os preços já reagiam às pesquisas. No dia 9 de outubro, o Ibovespa, principal índice da bolsa, fechou em alta de 1,38%, aos 209.066,90 pontos. Segundo o Times Brasil, o dólar caiu 0,78%, para R$ 4,9851. Naquele dia, pesquisas davam vantagem numérica a Flávio Bolsonaro.

O economista Arthur Horta, da GTF Capital, resumiu ao mesmo site: “O que está fazendo preço aqui no Brasil são as eleições”. Para ele, “O mercado é guiado pela expectativa”.

O que pesa é o risco fiscal, ou seja, a chance de o governo não fechar suas contas. O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega disse ao Times Brasil, em outubro de 2025, que a política fiscal “pode ser o detonador de uma grande crise fiscal”. Essa é a leitura de um analista, e ela importa para quem investe.

O próprio governo reconhece o problema. Em julho, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o desafio “Não é um desafio urgente, iminente, que vai quebrar o País ano que vem”. Ao mesmo tempo, afirmou que as soluções devem vir “de maneira urgente”.

Essas informações são legítimas e úteis. A bolsa as transforma em preço. Um preço, porém, não é voto.

Quanto pesa o pregão na vida de quem vota

A B3 informou 5,7 milhões de CPFs de pessoas físicas em renda variável no fim do segundo trimestre de 2026. Renda variável é o investimento em ações, ETFs e outros produtos cujo valor oscila. Dividido pelos 158.745.463 eleitores aptos, informados pelo TSE, o total equivale a 3,6%. Esse é um cálculo nosso.

Pode-se dizer que o dólar afeta todo mundo. Isso é verdade. Quando a moeda sobe, bens importados e insumos tendem a ficar mais caros. Em dezembro de 2024, o economista Homero Guizzo, da Terra Investimentos, disse que, com a economia perto da capacidade, a desvalorização é “repassada com mais rapidez e força aos preços ao consumidor”.

Mas afetar preço não é dar legitimidade. A cotação não conta votos e não dá mandato. O trabalhador sente o dólar no que compra. Ele escolhe quem governa pelo voto, e não pela cotação.

Os números comparam bem. Lula teve 64,3 milhões de votos, mais de 11 vezes os 5,7 milhões de CPFs da bolsa. Os 124 milhões de votos válidos são mais de 21 vezes esse total.

Quem discorda do resultado tem um caminho definido. Ele passa pela Justiça Eleitoral e exige prova. Dizer “vamos pedir a anulação” não substitui essa etapa.

O que diz a B3: Em comunicado de 6 de julho de 2026 sobre os investidores pessoa física, o diretor Felipe Paiva afirmou: “A B3 e os participantes do mercado vêm ampliando a oferta de produtos e facilitando o acesso a diferentes alternativas de investimento.” O comunicado trata de produtos e investidores, e não de eleições.

A bolsa seguirá mostrando o que investidores esperam das contas públicas. Isso é útil para quem decide com dinheiro. Ativos podem perder valor, e reações de pânico podem se aprofundar. Por isso, a cotação do dia não define o rumo do país.

A legitimidade de um governo vem do voto de 124 milhões de pessoas. Ela se confirma com emprego, serviços públicos e contas que fecham. O IBGE e o Tesouro Nacional publicam esses dados. O pregão é uma leitura entre outras, e não o placar.

Como fizemos: Os votos vêm do TSE, reproduzidos pelo ABC Mais e pelo InfoMoney, acessados em 26 de outubro de 2026. Os 124.082.273 votos válidos são a soma dos dois candidatos, nosso cálculo. O total de eleitores aptos (158.745.463) vem do TSE, via Bloomberg Línea. Os 5,7 milhões de CPFs são do comunicado da B3 de 17 de setembro de 2026. Os percentuais de 3,6%, 11 vezes e 21 vezes são nosso cálculo, e comparam contagens distintas. Os dados de fechamento de 9 de outubro vêm do Times Brasil, sem confirmação na B3. Não usamos cotações de 26 de outubro. Os dados não mostram quantas pessoas acompanham o pregão sem ter investimento.

Fontes