História e Cultura

Quatro batismos e um post apagado: o uso político da fé por Flávio

Flávio foi batizado quatro vezes, prometeu decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo e teve o post 'Lula não feche minha igreja' removido pelo TSE.

Ruínas de pedra de um antigo sítio religioso às margens de um poço de água esverdeada, com escadas e uma cobertura de madeira ao fundo.
Sítio arqueológico do batismo de Jesus, às margens do rio Jordão, na Jordânia; Flávio foi batizado duas vezes nesse rio (foto de arquivo de maio de 2010).Foto: Jan Smith / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), deu três horas para Flávio Bolsonaro apagar uma publicação. O post dizia “Lula não feche minha igreja”. Para a ministra, ele sugeria uma ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem. O Coletivo Bereia, agência de checagem evangélica, já havia classificado a acusação como falsa.

O episódio é o mais recente de uma campanha que pôs a fé no centro do palanque. Se Flávio é ou não um cristão sincero, nenhum documento permite dizer, e este texto não o faz. O que está registrado é o uso político da religião, e o desconforto que ele provoca em líderes religiosos.

Quatro batismos

Flávio se diz evangélico desde a juventude, por influência da mãe, e estudou em escola batista. Segundo a Agência Pública, ele foi batizado quatro vezes. A primeira, ainda jovem, na Tijuca, no Rio. A segunda, em 2016, no rio Jordão, numa viagem liderada pelo Pastor Everaldo.

A terceira foi em 2024, com a esposa, em Brasília. A quarta, de novo no rio Jordão, no início de 2026, ano da eleição. Pastores ouvidos pela Pública veem nos batismos repetidos um componente em parte político. Alguns disseram que ele “não parece evangélico”, citando festas de carnaval, o uso de cigarro eletrônico e o linguajar.

A fé virou discurso de campanha. Em agosto, Flávio prometeu decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo. Um pastor chamou a promessa de inconstitucional e teologicamente equivocada. Em junho, na Marcha para Jesus, e em outubro, no centenário de uma igreja, descreveu a situação do país como uma guerra espiritual.

O palanque no culto

Em 10 de outubro, Flávio participou do centenário da Assembleia de Deus Madureira, no Maracanãzinho, ginásio que pertence ao governo do estado do Rio. O bispo Samuel Ferreira puxou 14 vezes o coro “irmão vota em irmão”. Flávio disse depois que não era o bispo pedindo votos, e sim a igreja.

A entidade MBLaico pediu ao Ministério Público a cassação da candidatura e a revisão da imunidade tributária da igreja. A entidade já havia questionado o apoio que o pastor Silas Malafaia declarou a Flávio durante um culto, em maio. Naquele caso, apontou abuso de poder religioso. Malafaia, aliás, se afastou de Flávio em junho, depois do áudio com o banqueiro Daniel Vorcaro, e só voltou a apoiá-lo em agosto. As queixas ainda não tiveram decisão.

É preciso deixar claro um ponto. Não há prova de que igrejas financiem Flávio. Até 1º de outubro, R$ 55,2 milhões dos R$ 61,7 milhões arrecadados por ele, cerca de 89%, vieram do PL, segundo o Poder360.

Com a Igreja Católica, a relação azedou. Circulou o boato de que Flávio queria retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Ele negou e chamou a história de mentira do PT. O pastor que o batizou em 2024, porém, escreveu um livro defendendo justamente a retirada do título.

Em 27 de setembro, Flávio disse que pessoas dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ajudaram a espalhar o boato. A CNBB negou no mesmo dia e afirmou que a acusação não tinha fatos nem provas. Um bispo criticou o histórico de ataques da família à entidade.

O apoio evangélico também oscilou. Entre maio e junho, a fatia de evangélicos com Flávio caiu de 61% para 52%, segundo a Quaest. E a Igreja Universal, cujo partido, o Republicanos, apoia Flávio, avisou aos pastores em 14 de outubro que ficaria neutra.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele se apresenta como evangélico desde a juventude. Nega querer mudar o título da padroeira e atribui o boato ao PT. Sobre o culto no Maracanãzinho, afirmou que o pedido de voto partiu da igreja, não do bispo.

A fé de cada um é assunto de cada um. O voto, não. Quando um candidato transforma batismos em agenda, promete decretos religiosos e tem posts apagados pela Justiça Eleitoral, a religião deixa de ser crença e vira ferramenta de campanha. O eleitor cristão tem o direito de perguntar se está sendo servido ou usado.

Fontes