Opinião

Duro na favela, vago na Faria Lima: Flávio contra o dinheiro do crime

O plano de Flávio promete abater criminosos de fuzil e erguer megapresídios, mas não traz medida concreta para seguir o dinheiro das facções.

Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

Carros parados no semáforo de uma avenida larga, cercada de prédios altos e árvores, diante de uma faixa de pedestres.
Trânsito na Avenida Brigadeiro Faria Lima, centro financeiro de São Paulo (foto de arquivo de dezembro de 2014).Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto cumpriu mais de 350 mandados em oito estados. Segundo a Polícia Federal (PF), mais de mil postos de combustíveis movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma única fintech, empresa financeira digital, funcionava como “banco paralelo” e movimentou mais de R$ 46 bilhões. Fundos sob investigação somavam cerca de R$ 30 bilhões.

Esse é o retrato do crime organizado de hoje: menos barricada, mais planilha. Nós, que defendemos a polícia e a Lava Jato, aprendemos a lição há anos. Facção se derrota quando se segue o dinheiro. É justamente aí que o plano de Flávio Bolsonaro fica vago.

Força para a favela

Para os grupos armados, o plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é detalhado. O texto fala em criminoso armado de fuzil “abatido”. Estão previstos cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador e 500 mil novas vagas em quatro anos.

O plano também declara o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as milícias organizações narcoterroristas, com bens congelados. A ideia tem defensores entre especialistas, que veem no rótulo uma ferramenta de asfixia financeira. Reconheço o mérito. Mas rótulo não é investigação.

Também é justo registrar que Flávio votou a favor do projeto antifacção. O Senado o aprovou por 64 a 0, em dezembro de 2025. E sua proposta econômica fala em transformar a Caixa num “Itaú da favela”, com mais acesso a crédito.

Silêncio para o andar de cima

Quando o assunto é o lado financeiro do crime, o tom muda. Em 18 de junho, num evento na Faria Lima, Flávio pediu ao mercado que ajudasse a sufocar financeiramente os grupos que chama de narcoterroristas. Seu aliado Derrite mirou as fintechs de fachada.

Faltou o principal: medidas. Segundo a Gazeta do Povo, nenhuma proposta específica para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), para a Receita Federal ou para as fintechs foi apresentada. O Coaf é o órgão que monitora movimentações suspeitas. Nas reportagens disponíveis, também não há posição dele sobre os poderes do Coaf ou sobre a regulação do setor.

E o setor precisa de regras. A própria Receita admitiu que revogar, em janeiro de 2025, a obrigação de as fintechs declararem movimentações enfraqueceu a fiscalização. A revogação veio depois da onda de notícias falsas sobre a “taxação do Pix”. Após a Carbono Oculto, a obrigação voltou. O Banco Central limitou o Pix e as transferências por TED a R$ 15 mil em instituições de pagamento não autorizadas.

A investigação continuou. Em maio de 2026, a fase Fluxo Oculto apontou seis fintechs que teriam movimentado mais de R$ 26 bilhões. As empresas negam irregularidades.

Há ainda o caso que toca o candidato de perto, sem que isso o ligue ao PCC. Nenhuma reportagem associa o dinheiro de Flávio à facção, e é preciso dizer isso com todas as letras. Mas, segundo a PF, fundos da gestora Reag podem ter movimentado cerca de R$ 250 milhões para o PCC. A Reag nega, e o Banco Central liquidou a gestora em janeiro de 2026. Fundos da mesma Reag aparecem na suposta fraude do Banco Master.

O dono do Master é Daniel Vorcaro, a quem Flávio enviou a mensagem “irmão, estou e estarei contigo sempre” na véspera da prisão do banqueiro. Quem trata assim o dono de um banco investigado não transmite firmeza contra o crime de colarinho branco.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirma que classificar PCC, CV e milícias como narcoterroristas permitirá congelar seus bens e asfixiar as facções, e lembra que votou pelo projeto antifacção. Pediu ao mercado financeiro que colabore nesse esforço. Sobre Vorcaro, diz que o dinheiro que pediu era privado e lícito.

No debate da Band, Lula disse que o crime precisa ser combatido da esquina até a cobertura. A frase é de um adversário, mas o diagnóstico é o que nós sempre defendemos. Um candidato só da esquina deixa a cobertura em paz. A direita que confia na polícia merece um projeto que siga o dinheiro, não apenas os fuzis.

Fontes