Justiça e Segurança

Flávio, Vorcaro e o filme do pai: o 'irmão' da véspera da prisão

A PF aponta 'divergência severa' no caso Dark Horse: mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil e apenas US$ 2,8 milhões voltaram registrados.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de terno escuro, sentado durante entrevista no Senado Federal, em Brasília.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em entrevista no Senado Federal, em Brasília, em 30 de abril de 2026.Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou ao dono do Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, uma mensagem de lealdade em 16 de novembro de 2025. Era a véspera da prisão dele. “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, dizia o texto, revelado pelo Intercept e incorporado ao caso Dark Horse, o único inquérito criminal aberto contra o candidato à Presidência.

O caso é conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sob suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas — a remessa ilegal de valores ao exterior — e corrupção. Flávio é investigado, não réu: não há denúncia nem acusação formal contra ele. Inquérito, denúncia e condenação são etapas diferentes, e o caso está na primeira.

O núcleo da apuração é um pedido de dinheiro para um filme. Flávio pediu a Vorcaro US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões. O destino era um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu pai, segundo o Intercept, que revelou os áudios em maio. A produção se chama Dark Horse, e o nome virou o apelido do caso.

Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025 e depois rastreados em US$ 12,3 milhões, ainda segundo o Intercept. O dinheiro foi para a Havengate, um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador e também alvo do inquérito. Segundo o Intercept, a Havengate fora criada em 2020 para um projeto habitacional que nunca recebeu licenças. O primeiro pagamento vindo do lado de Vorcaro, de US$ 2 milhões, chegou em 14 de fevereiro de 2025.

Antes da mensagem de lealdade, em 8 de setembro de 2025, Flávio cobrara de Vorcaro os pagamentos em atraso, segundo o Intercept.

De ‘mentira’ a confirmação em um dia

A reação pública do senador mudou no espaço de um dia. Em 13 de maio deste ano, Flávio chamou a reportagem de mentira pela manhã. À noite, confirmou ao Poder360 que buscou “patrocínio privado” para um filme privado. Ele negou ter oferecido contrapartidas e disse que não usou dinheiro público.

Os checadores mediram o resto. A Lupa considerou falsa a afirmação de que os contratos e o fundo já tinham sido mostrados. Sobre o programa Rouanet, o mecenato estatal federal, o site classificou a negativa de dinheiro público como sem contexto: a produtora havia pedido R$ 8,59 milhões ao Rouanet e foi recusada. O Aos Fatos contou ao menos 43 afirmações falsas do senador sobre Vorcaro.

O inquérito e a contabilidade que não fecha

O caso chegou ao STF em 22 de julho. O ministro André Mendonça abriu o inquérito a pedido da Polícia Federal (PF), com anuência da Procuradoria-Geral da República (PGR), e incluiu Flávio como investigado, segundo a Agência Brasil. Eduardo Bolsonaro também é alvo.

Em setembro, Mendonça homologou a colaboração premiada do cambista Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”. No dia 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça cooperação dos Estados Unidos para rastrear os recursos, segundo a CNN Brasil. O caso atravessou a campanha inteira: inquérito aberto em julho, colaboração em setembro, cooperação internacional em outubro.

A contabilidade é o ponto mais sensível. A PF classifica como “severa” a divergência apontada. Mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas apenas US$ 2,8 milhões constam como retorno, segundo reportagem da Deutsche Welle publicada pelo jornal O Povo. No dia 16, a PF pediu ao STF mais 90 dias para concluir o inquérito. Não houve decisão até agora, segundo o ConJur.

O que diz Flávio Bolsonaro: À CNN Brasil, no dia 16, o senador disse que o dinheiro de Vorcaro era “lícito e privado”. Sua condição de senador, afirmou, não dava vantagem ao banqueiro. Ele nega ter oferecido contrapartidas e atribui a divergência apontada pela PF a um contrato que não foi cumprido.

O inquérito corre em plena reta final da campanha. O segundo turno é no domingo (25), e a decisão sobre os 90 dias pedidos pela PF pode sair depois da eleição. Encerrada a apuração, caberá à PGR oferecer denúncia ou pedir o arquivamento — e a palavra final será do STF. Flávio chega à disputa como investigado, não como réu, e o caso deve atravessar a posse do próximo presidente, seja quem for.

Fontes