Agro do interior perde competitividade no caminho até o porto
Mato Grosso colhe a maior safra de soja do país longe do mar. Concessões e planejamento de longo prazo valem mais do que pacotes de ocasião.
Artigo de opinião. Reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Auriverde.

Mato Grosso colheu cerca de 51,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26, segundo o levantamento de maio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). É o maior produtor de um país que lidera a produção mundial do grão, como registra a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). E o estado não tem saída para o mar.
Boa parte dessa soja vai para fora. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 108 milhões de toneladas de soja em grão, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), em dados reunidos pela Embrapa. Cada uma dessas toneladas precisou viajar centenas de quilômetros até um porto.
Um país sobre rodas
O caminho ainda é, em grande parte, o asfalto. Segundo a Infra S.A., estatal de planejamento de transportes, as rodovias respondem por 54% da movimentação de cargas no país. As ferrovias ficam com 27%, e a navegação, com 19%.
Os números foram divulgados em agosto, com o Plano Nacional de Logística (PNL) 2050, do governo federal. O plano busca uma matriz mais equilibrada, o que é um reconhecimento oficial do problema.
Para carga pesada e de longa distância, como grãos e minério, trem e barco costumam custar menos por tonelada do que caminhão. Quando a ferrovia não existe, o produtor paga a diferença.
E paga mesmo. O preço da soja é definido no mercado internacional, e o comprador não aceita pagar mais porque o frete brasileiro é caro. Cada real a mais no transporte sai, portanto, da margem de quem produz.
Contrato longo, regra estável
A solução passa por capital privado, e o Brasil já tem leis para isso. A Lei 8.987, de 1995, regula as concessões de serviços públicos, como rodovias com pedágio. A Lei das Ferrovias, de 2021, criou o regime de autorização, em que a empresa constrói e opera uma linha por sua conta e risco.
Investidor privado, porém, só aplica dinheiro por décadas se confiar nas regras. Isso exige agências reguladoras técnicas, contratos respeitados e licenciamento ambiental com prazos previsíveis.
Exige também planejamento que sobreviva às trocas de governo. Pacotes que mudam de nome a cada mandato, com obras que param e recomeçam, custam caro e entregam pouco. Uma ferrovia leva anos para sair do papel, e o plano precisa durar mais do que ela.
O PNL 2050 é um bom ponto de partida, porque olha para 24 anos à frente. O teste será transformá-lo em leilões, contratos e trilhos, e não em mais um relatório na prateleira.
O que diz quem pensa diferente: Para defensores do investimento público, há trechos em que a concessão não se paga, porque o tráfego é baixo ou a obra é cara demais. Nesses casos, só o orçamento público ou parcerias com aporte do governo viabilizam a obra. A Lei das Parcerias Público-Privadas (PPPs), de 2004, prevê contratos em que o poder público complementa a receita do parceiro privado.
O novo mandato presidencial começa em 5 de janeiro, e o plano já estará pronto sobre a mesa. Para o produtor do interior, a disputa que importa não é entre público e privado. É entre ter ou não ter, daqui a dez anos, um trilho até o porto.
Fontes
- Plano Nacional de Logística 2050 reforça integração entre os diferentes modais de transporte — Agência Gov
- Soja em números — Embrapa Soja
- Companhia Nacional de Abastecimento — Conab
- Lei nº 14.273, de 23 de dezembro de 2021 (Lei das Ferrovias) — Planalto
- Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995 — Planalto
- Lei nº 11.079, de 30 de dezembro de 2004 (Parcerias Público-Privadas) — Planalto
- Agência Nacional de Transportes Terrestres — ANTT


