Narcorreligião: como facções usam igrejas e símbolos cristãos no Brasil
Do 'Complexo de Israel' de Peixão a templos usados para lavar dinheiro, investigações mostram o crime usando a fé, um fenômeno ainda sem números nacionais.

Em 28 de setembro, dois ônibus escolares foram interceptados na Linha Vermelha, uma das principais vias expressas do Rio de Janeiro. Segundo a polícia, a ação foi da “Tropa do Arão”, grupo ligado a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. Ele é investigado por terrorismo.
Peixão chefia o Terceiro Comando Puro (TCP) e nunca foi preso. Desde 2016, a facção tomou cinco favelas da zona norte do Rio. O conjunto passou a ser chamado de “Complexo de Israel”, com bandeiras israelenses e uma identidade evangélica autodeclarada. Facções são organizações criminosas que dominam territórios e controlam o tráfico de drogas.
A fé como bandeira do tráfico
Segundo a CartaCapital e a BBC, Peixão persegue religiões de matriz africana nas áreas que controla. A BBC descreve traficantes que se veem como soldados de Jesus e que levaram essa identidade para outras regiões do país. O chefe da Polícia Civil do Rio descreveu o domínio dele como uma ditadura religiosa.
O fenômeno não está restrito ao Rio. Em novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) informou ao Congresso que o TCP é o terceiro grupo criminoso emergente do país. A facção vem depois do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) e já está presente em nove estados.
A pesquisadora e pastora Viviane Costa estudou o tema no livro Traficantes evangélicos, de 2023. Ela prefere o termo “narcorreligião”. Segundo a autora, falar em “narcopentecostalismo” exagera, porque sugere uma ligação exclusiva com as igrejas pentecostais. O estudo dela é qualitativo e não traz números nacionais. Ninguém sabe, portanto, quantas igrejas no país estão sob influência do crime.
Igrejas usadas para lavar dinheiro
Além dos símbolos, há casos em que templos teriam servido para esconder dinheiro do crime. Lavar dinheiro é dar aparência legal a recursos ilegais. Nenhum dos casos abaixo tem condenação, e todos devem ser lidos como acusações.
Na Operação Plata, no Rio Grande do Norte, em fevereiro de 2023, a polícia acusou o irmão de um líder do PCC e a mulher dele. Segundo a investigação, o casal abriu sete igrejas para lavar mais de R$ 23 milhões.
Na Operação Fariseus, em Mato Grosso, em julho de 2026, dois pastores foram alvo. A polícia afirma que eles usavam um projeto de evangelização em presídios para levar recados e dinheiro do CV.
Na Operação Mafiusi, da Polícia Federal (PF), em março de 2025, a Igreja Mundial do Poder de Deus, do pastor Valdemiro Santiago, foi citada. A investigação apontou transações atípicas num inquérito sobre lavagem de dinheiro do PCC. Não houve acusação formal contra a igreja.
Há também relatos sobre milícias. Em 2020, pesquisadores universitários reuniram informações de que algumas igrejas pentecostais lavariam dinheiro de milicianos e intermediariam laços políticos no Rio. Os relatos não foram comprovados.
O crime fora das facções também aparece. Em julho de 2026, a PF prendeu o pastor Márcio Poncio numa nova fase da Operação Unha e Carne, que apura a lavagem de dinheiro da máfia do cigarro. Nesse caso, não há ligação descrita com facções.
O tema exige cuidado com o que não está provado. A Operação Carbono Oculto, que mirou o dinheiro do PCC no setor de combustíveis em 2025, não menciona igrejas nas reportagens disponíveis. Não é correto afirmar que contas de templos foram usadas nesse esquema.
O que diz a pesquisadora Viviane Costa: Pastora e estudiosa do tema, ela alerta que não se deve culpar o pentecostalismo como um todo. Prefere o termo “narcorreligião” e lembra que o fenômeno ainda não foi medido em escala nacional.
A imensa maioria dos fiéis e das igrejas nada tem a ver com o crime. É justamente por isso que o uso da fé pelas facções precisa ser investigado com rigor e sem generalizações. Quando o tráfico se veste de igreja, quem perde primeiro são os fiéis honestos e as religiões perseguidas nos territórios dominados. O desafio para quem vai governar o país a partir de 2027 é seguir o dinheiro e proteger a liberdade de culto ao mesmo tempo.
Fontes
- Quem é Peixão, o traficante evangélico dono de um império religioso-criminal no Rio de Janeiro — CartaCapital
- A expansão pelo Brasil dos traficantes que se veem como soldados de Jesus — BBC via Terra
- Chefe do tráfico no Complexo de Israel ordenou ataque a ônibus escolares, diz polícia — O Tempo
- A facção evangélica que emerge como terceira força do crime organizado do Brasil — BBC via O Povo
- Pastores são presos por usar igrejas para lavar dinheiro do PCC — O Liberal
- Pastores e filha são alvo por elo com o Comando Vermelho — Minuto MT
- Gusttavo Lima e pastor Valdomiro são citados em investigação da PF sobre lavagem do PCC — Brasil de Fato
- Pesquisa aborda relação entre fé e crime — Agência Brasil



